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UM PAPA INTOLERANTE E IMPLACÁVEL

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Sim, referimo-nos ao Papa Francisco. Um Papa intolerante e implacável com o
mal feito na administração eclesiástica, com a corrupção, com a desonestidade, com o
mau uso dos recursos financeiros da Igreja oriundos da generosidade dos fiéis e que
deveriam ser aplicados na evangelização e na assistência aos pobres.
Francisco é Papa oriundo de um país socialmente desigual e cheio de
injustiças, em boa parte consequentes de um sistema político e financeiro corrupto,
algo muito comum nos países da América Latina, o que torna a política destes países
bastante instável e a sociedade extremamente desigual, em que alguns poucos
desfrutam de enormes fortunas enquanto a grande maioria da população vive de
forma precária e injusta. Isto talvez seja apenas a ponta do iceberg de uma corrupção
endêmica no continente latino-americano, que vigora e afeta amplamente as
instituições. E Bergoglio sentiu isto muito fortemente na Argentina: viveu os efeitos do
peronismo e o peso do caudilhismo latino-americano, passou pelas ditaduras peronista
e militar. De modo que toda esta realidade conturbada apelou ao seu coração de
pastor tornando-o ainda mais próximo do povo sofrido. Nunca foi bispo palaciano,
encastelado no palácio episcopal e distante da realidade de seus arquidiocesanos.
Muito pelo contrário, era assíduo às comunidades da periferia de Buenos Aires, usava
transporte público, muito facilmente era encontrado junto aos pobres. Talvez tenha
sido esta rica experiência de encontro e proximidade que o leva a tanto insistir em
expressões como “Igreja em saída”, “periferias existenciais” e “cultura do encontro”.
Pois conhece com propriedade as agruras do povo sofrido, assim como também as
raízes de tantas formas de opressão e injustiças sociais, a saber: a ganancia e a
corrupção.
Ainda como cardeal de Buenos Aires, em um livro seu de 2005, intitulado
“Corrupção e Pecado”, Jorge Mario Bergoglio afirma que “situação de pecado e estado
de corrupção são duas realidades diferentes, embora intimamente entrelaçadas”. Mas
aí ele explica que pecado se perdoa, ao passo que a corrupção não pode ser
perdoada, pois diante de Deus misericordioso e sempre disposto a perdoar, a
autossuficiência do corrupto se torna um bloqueio que o impede de se arrepender e
pedir perdão a Deus.
Já Bispo de Roma, no prefácio da obra “Corrosão – Combater a Corrupção na
Igreja e na Sociedade”, do Cardeal Turkson, Francisco escreve muito acertivamente
contra a corrupção, chegando a afirmar: “Um pecador pode pedir perdão, um corrupto
esquece-se de pedi-lo. Por quê? Por que já não tem necessidade de ir longe, de
procurar pistas para lá de si mesmo: está cansado, mas saciado, cheio de si. Com
efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a
indiferença”.
Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco insiste constantemente em
abordar o tema da corrupção, não perdendo uma única oportunidade de fazê-lo, como
o fez em um tweet seu do dia 09/12/2019, Dia Internacional Contra a Corrupção, em
que ele afirma: “A corrupção degrada a dignidade da pessoa e destrói bons e belos
ideais. A sociedade é chamada a se comprometer especificamente a combater o

câncer da corrupção que, com a ilusão de ganhos rápidos e fáceis, realmente
empobrece a todos”.
Todavia, o Romano Pontífice é consciente de que a corrupção não está apenas
fora da Igreja, mas nela se infiltra da forma mais sorrateira apodrecendo corações e
matando a fé. Talvez a corrupção seja a mais grave chaga da Igreja, até mais que os
escândalos de abusos sexuais, também monstruosos e inadmissíveis. Pois, “a
corrupção substitui o bem comum por um interesse particular que contamina toda a
perspectiva geral. Ela nasce de um coração corrupto e é a pior chaga social, porque
gera gravíssimos problemas e crimes que envolvem todos” (in Corrosão – Combater a
Corrupção na Igreja e na Sociedade). Ainda no referido prefácio da obra do Cardeal
Turkson, o Santo Padre recorda a afirmação de Henri de Lubac, segundo a qual, o
maior perigo para a Igreja é a mundanidade espiritual, portanto, a corrupção, que é
mais desastrosa que a lepra infame.
De fato, não há como negar o que foi acima exposto. A corrupção na Igreja é a
mundanidade espiritual, que gera hipocrisia, indiferença, insensibilidade para com
quem mais sofre e até a falta de fé. Consequências gravíssimas e até criminosas que
expõem a degradação de um coração corrompido pelo dinheiro e pelo poder.
Entretanto, o Papa Francisco não fica apenas nas duras críticas e
condenações à corrupção. É dele mesmo que vem o exemplo de uma vida simples e
abnegada; e ainda a determinação de normas concretas e precisas que impõem um
forte combate à corrupção na Igreja, sendo intolerante e até mesmo implacável com
atos de corrupção, como desvios e má utilização dos recursos eclesiásticos, haja vista
o expressivo número de bispos e de até cardeais destituídos de seus ofícios, ou pelo
menos levados a renunciá-los, para o bem da Igreja. Pois os bens temporais que a
Igreja possui devem ser utilizados com o objetivo de atingir suas finalidades, isto é, o
sustento e a promoção do culto, a evangelização, a catequese, o sustento honesto do
clero e as obras de caridade, especialmente para com os mais pobres. Por isso, a
Igreja deve estar sempre vigilante a fim de que os seus recursos temporais sejam
empregados em vista destas finalidades.
E já que vivemos na era da informação e da transparência, cabe a Igreja
também dar o exemplo prestando contas da aplicabilidade dos recursos eclesiásticos,
desde as pequenas comunidades até as instituições mais complexas. Por isso, que
muito sabiamente o Código de Direito Canônico de 1983 prevê que desde as
paróquias até as entidades maiores, haja um conselho econômico, que possa ajudar
na gestão dos referidos recursos. E até a CNBB, diante do apelo popular, passa agora
a divulgar com mais transparência e informação a utilização dos recursos oriundos das
campanhas nacionais de coletas que são realizadas durante o ano.
Com efeito, toda transparência e prestação de contas dos bens temporais da
Igreja só vem agregar mais valor a sua moralidade e profetismo, bem ao estilo de
Francisco.
Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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