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Um dia para a paz

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Sempre por ocasião do Ano Novo, a fim de lhes trazer à consciência a importância da paz, de sua promoção e conservação, o Santo Padre tem a iniciativa de se dirigir aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões e, por fim, a todos os homens e mulheres de boa vontade. Trata-se da mensagem do Papa para a celebração anual do Dia Mundial da Paz. E neste ano de 2021, 54º Dia Mundial da Paz, a temática central é: “A Cultura do Cuidado como Percurso de Paz”. Quem lê a carta do Sumo Pontífice, percebe que é um homem extremamente sensível às dores que acometem as pessoas no mundo inteiro em um momento crucial da história humana, de modo muito particular em 2020 com a crise sanitária da COVID-19 “que se transformou num fenômeno plurissetorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, econômica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incômodos”. O documento faz menção àqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também a quem ficou sem trabalho, aos médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que têm se prodigalizado com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles adoecerem em serviço, vindo inclusive a óbito.

O Santo Padre esclarece que escolheu o supracitado tema face à constatação dolorosa de que, concomitantemente a “numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia, e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição”. Daí a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação para que construamos uma sociedade fundada na fraternidade. Para o Papa Francisco a cultura do cuidado é percurso para “erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que em nossos dias parece prevalecer”. E para fundamentar a presente temática, o Romano Pontífice parte das Sagradas Escrituras, ao recordar que a vocação ao cuidado humano está alicerçada no próprio Deus, que tudo criou e colocou sob os cuidados do ser humano, ao mesmo tempo em que Ele revela-se não somente como Criador, mas também como modelo de cuidado, pois “cuida de suas criaturas, em particular Adão, Eva e seus filhos”.

O Papa Francisco, a despeito de sua aparência frágil, é a principal força moral deste nosso tempo tão conturbado e carente de lideranças. Ele brilha no mundo de hoje como os profetas de outrora, ao insistir numa causa justa e necessária para o nosso tempo. O seu brado ecoa e chega a cristãos e não cristãos, que o respeitam por ser ele principal defensor dos pobres, em toda plenitude do termo. E embora ainda haja muitos que insistem em fazer ouvidos mocos aos seus apelos, ele por outro lado continua impávido a insistir em favor da concórdia e da paz, como vértice de todos os bens terrenos.

Criado em 1967 pelo Papa Paulo VI, o Dia Mundial da Paz tinha como proposta inicial dedicar o primeiro dia do ano à paz, não querendo o Papa que fosse uma data celebrada apenas no universo católico, cristão ou religioso, como se fosse uma celebração ecumênica ou inter-religiosa. Mas deveria ela contar com a adesão de todos os homens e mulheres de boa vontade, visto que o compromisso com a paz é uma exigência existencial do coração humano, independentemente de religião, nação, cultura, etnia, idioma ou classe social. Neste sentido, o Papa Francisco age em continuidade com o magistério de seus antecessores, que também não tinham os olhos e corações voltados somente para os filhos da Igreja, mas para todos os filhos de Adão (adam – homem) e da terra (adamah).

A questão da paz é preocupação constante da Igreja. Sempre em pauta, e não somente em momentos de conflitos, pois tal questão está relacionada ao próprio problema do mal, presente entre nós desde o princípio dos tempos.

Na tradição bíblica, a paz aparece como o bem maior a ser alcançado. É dom que vem de Deus, não dos homens. Porém, os homens devem pedi-la e trabalhar por ela. O mal presente no mundo, expresso pelo pecado, continua a ter as suas consequências: egoísmo, ganância, corrupção, racismo, preconceito, intolerância, ódio, violência, etc. Tudo isto está entre nós como consequências da quebra da unidade nossa com Deus e entre nós mesmos, seduzidos que somos muitas vezes pelo diabo, que nos aparta de Deus e uns dos outros, assim como acontecera outrora com os nossos primeiros pais no Paraíso. Daí, então, a necessidade de empenharmos todas as nossas forças para restabelecer a ordem e a unidade perdidas por conta do afastamento Deus. Este afastamento precede ao pecado propriamente praticado e em última análise já é pecado em si. Pois toda vez que o ser humano se afasta de Deus, ele peca. E a maior consequência do pecado é a morte. Por isso, na carta deste ano o Santo Padre evoca o episódio bíblico do livro dos Gênesis em que Caim mata seu irmão Abel, e Deus lhe pergunta por ele, ao que Caim responde: “Sou, porventura, guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). E o Papa Francisco responde positivamente: “Com certeza!”. Esta é uma história bíblica carregada de simbolismo e que já traz consigo a “convicção atual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros”.

A voz do Papa é como a voz dos antigos profetas, que como verdadeiros megafones de Deus, ou boca de Deus, procuravam exortar o povo a fim de se restabelecer o que se havia perdido pelo pecado. Entretanto, o profeta pode muito pouco sozinho sem a cooperação de corações verdadeiramente cheios, não somente de boas intenções, mas plenos de boa vontade, de modo a ouvir a voz do Profeta e seguir suas diretrizes. Para isso, as instituições, os homens e as mulheres de nosso tempo, principalmente aqueles que têm o poder de decisão de maneira a reverberar na vida e na rotina das pessoas, devem estar convencidos de que a paz é um bem necessário que corresponde a mais íntima aspiração humana. Contudo, jamais se tornará realidade efetivamente concreta entre nós se estivermos afastados de Deus. Pois não há paz sem conversão.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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