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Sou Bom Pastor

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Tradicionalmente no 4º Domingo do Tempo da Páscoa celebramos o Domingo do Bom Pastor, quando a liturgia da Palavra da missa nos apresenta Jesus como o Bom Pastor do povo de Deus, que aí também aparece como rebanho de ovelhas muitas vezes feridas, desgarradas, perdidas, em perigo ou mesmo rebeldes. Pode parecer um tanto estranho em pleno tempo pascal interrompermos a sequência de relatos evangélicos dos últimos três domingos em que a liturgia destaca as imagens do sepulcro vazio e das aparições do Ressuscitado. Mas, isto se deve a uma anífona antiquíssima, provavelmente do século IV, que hoje aparece na liturgia como antífona da comunhão com os seguintes dizeres: “Ressuscitou o bom pastor, que deu a vida por suas ovelhas e quis morrer pelo rebanho, aleluia!”. Portanto, sintetizando a índole deste domingo pascal, que na pastoral também tem grande importância por ser o Dia Mundial de Oração pelas Vocações.

A imagem de um Deus-Pastor é muito frequente e cara ao Antigo Testamento, principalmente nos livros sapienciais, em que aparece de forma tão doce e reconfortante. Como não se comover com aquelas imagens descritas no salmo 22 e construídas no imaginário cristão? Isto ocorre porque a própria reflexão sobre o êxodo do Egito, que foi se construindo através dos séculos, compreendia Deus como um Pastor cuidadoso e amoroso que conduzia o seu povo rumo à Terra Prometida. Daí também o salmo 94,7 dizer: “Ele é nosso Deus; nós somos o povo de que ele é pastor, as ovelhas que as suas mãos conduzem.” E até mesmo a linguagem profética acaba por utilizar repetidas vezes estas imagens que nos reportam ao ambiente pastoril, querendo expressar o cuidado de Deus para com o seu povo, exortando à conversão tanto as ovelhas como aqueles que Ele mesmo constituiu como pastores do Seu rebanho, como se pode verificar em Ezequiel 34, onde o profeta, em nome de Deus, acusa os pastores do povo de apascentar a si mesmos oprimindo e explorando as ovelhas o quanto podem para delas tirarem proveito próprio. Por isso, Deus mesmo decide vir pessoalmente pastorear o seu rebanho e conduzi-lo ao destino desejado.

Já no Novo Testamento, a imagem do pastor não era tida em alta conta pela sociedade; muito pelo contrário, era até mesmo desprezada, pois o pastor era o homem pobre, simples, sem instrução intelectual e com cheiro de ovelha. Mas, será precisamente esta imagem de pastor que Jesus assumirá diante do povo. Inclusive, será exatamente esta classe desprezada a primeira destinatária do anúncio do nascimento do Messias (Cf. Lc 2, 16-17).

Entretanto, quando Jesus assume pra si esta figura de pastor, assim mesmo se autodefinindo, Ele não quer somente se identificar com uma classe desprezada, mas se conectar com aquela dimensão simbólica veterotestamentária em que Deus aparece pastoreando ou conduzindo o seu rebanho. Jesus, portanto, encarna toda a riqueza simbólica da imagem de pastor. A novidade, porém, está no relacionamento estabelecido entre pastor e ovelha.

São João diz que Jesus é o Bom Pastor basicamente por dois motivos: Ele dá a vida pelas suas ovelhas e as conhece pelo nome. E isto é maravilhoso! Ao afirmar que dá a sua vida pela vida das ovelhas, Jesus se distingue muito claramente do mercenário, contratado para cuidar das ovelhas. Contudo, como as ovelhas não são suas, e ele apenas recebe dinheiro para tomar conta do que não é seu, nos momentos de apuro, ele foge e deixa o rebanho à mercê dos lobos, ao passo que o Bom Pastor se importa com suas ovelhas. Ele não foge. Se necessário for, ele dá a sua vida para salvar a vida das ovelhas que são suas. Ele sabe dos valores e desvalores de cada uma delas, conhece suas fraquezas, seu temperamento. E reparemos que o evangelista usa o verbo “conhecer” (yadha), um dos mais profundos existentes na língua hebraica para designar um conhecimento íntimo entre as pessoas, sobretudo em contexto nupcial. Neste sentido, conhecer as ovelhas, significa conhece-las com intimidade, por dentro, naquilo que nem elas mesmas se conhecem. Gestos como chamar pelo nome, reconhecer a voz do pastor, são atos que denotam intimidade e segurança no relacionamento.

Com efeito, muito cedo surge na iconografia tradicional a imagem do Bom Pastor, notadamente nas ilustrações das primeiras catacumbas cristãs, em que, em geral, aparece o pastor com a ovelha nos ombros sob uma árvore, que significa a árvore da vida ou da imortalidade presente no Paraíso. Aí o Bom Pastor cheio de amor e misericórdia é quem conduz sobre os seus ombros à feliz eternidade do Reino Celestial a ovelha ferida de pecado.

Esta imagem do Bom Pastor será também aplicada mais tarde aos sucessores dos apóstolos, ou seja, os bispos, inclusive, de modo a fazer parte de suas insígnias episcopais o báculo, símbolo evidente do seu pastoreio. Porém não somente aplicada aos bispos, mas a todos os sacerdotes e a todos aqueles que se dedicam ao serviço do Reino. Por isso, as antigas abadessas também usavam o báculo e os abades de hoje ainda o usam. Pois o Bom Pastor será sempre ideal e modelo de dedicação, serviço, amor e sacrifício da própria vida por causa do rebanho que lhe é confiado.

Portanto, ao celebrarmos neste ano no 4º Domingo da Páscoa, o Domingo do Bom Pastor, o 58º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o Santo Padre nos propõe meditarmos a vocação de São José com o tema “São José: o sonho da vocação”, exatamente neste ano josefino, iniciado no último dia 8 de dezembro, por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como Padroeiro da Igreja Universal. O convite à reflexão e à promoção vocacional a partir do testemunho de São José, como vimos na carta apostólica Patris Corde é retomado agora na mensagem do Papa para este domingo: “Deus vê o coração (Cf. 1 Sam 16, 7) e, em São José, reconheceu um coração de pai, capaz de dar e gerar vida no dia a dia. É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias”. Na mensagem, o Romano Pontífice afirma ainda que a “fidelidade de cada dia” é o “segredo da alegria” e por fim, com palavras cheias de profundidade, expressa o seu desejo de que esta alegria esteja presente nas casas religiosas: “Como seria belo se a mesma atmosfera simples e radiosa, sóbria e esperançosa, permeasse os nossos seminários, os nossos institutos religiosos, as nossas residências paroquiais! É a alegria que vos desejo a vós, irmãos e irmãs que generosamente fizestes de Deus o sonho da vida, para O servir nos irmãos e irmãs que vos estão confiados, através duma fidelidade que em si mesma já é testemunho, numa época marcada por escolhas passageiras e emoções que desaparecem sem gerar a alegria”.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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