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Que Ele reine

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Neste último domingo do Tempo Comum nós celebramos a solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI em 1925, numa fase do século XX em que ascendiam ao poder na Europa personagens de forte inclinação tirânica, que posteriormente se tornaram de fato grandes tiranos opressores, como Mussolini na Itália e Hitler na Alemanha. Queria o Santo Padre proclamar para todo o mundo que a respeito da crescente tirania daqueles que exerciam o poder temporal, somente Jesus Cristo é realmente Rei de tudo o que há, ou seja, Rei do Universo. E o seu Reino supera não somente todo poder temporal, como também todo entendimento enquadrado unicamente nas balizas da razão. Pois, o Reino de Cristo possui perspectiva escatológica, em que Ele mesmo, Cristo-Rei-Ressuscitado é a primícia da nova humanidade dos redimidos e tem senhorio universal também como Pastor, guiando o seu povo na justiça e na lei do amor aos humildes, com quem Ele se identifica. Neste sentido, torna-se aqui oportuno lançar luz sobre os elementos mais importantes da história de Israel que fazem Jesus se identificar com este Rei cujo Reino não é deste mundo.

A experiência fundamental de Israel como povo de Deus é uma experiência de fé que parte de sua libertação da escravidão no Egito através da mão poderosa de Deus, que a partir daí torna-se o Deus salvador que realiza um ato de amor não só para com a humanidade, mas para com toda a natureza, como é perceptível no caso do deslocamento das águas a fim de que o povo passasse a pé enxuto, que é interpretado por Israel como um ato salvador do amor de Deus (Ex 14,21). Assim, podemos evidenciar já na religião hebraica certo censo escatológico no sentido de esperança de um porvir misterioso progressivamente revelado por Deus. Pois este mesmo Deus Revelador participa ativa e pessoalmente da história de Israel conduzindo-o para um fim por Ele mesmo determinado. Neste fim insere-se a primeira promessa feita a Abraão de que a sua posteridade seria mais numerosa do que as estrelas do céu e que gozaria de uma terra onde correria leite e mel (Gn 15,5; 22,17), além da promessa de um Rei Salvador e Mediador entre Deus e o povo, promessa esta que se fortalece gradativamente ao longo da monarquia. Visto que os reis de Israel não são bons e justos para com seu povo, Deus mesmo há de enviar um Rei que seja bom e justo mediador entre Deus e os homens.

Todavia, a realização da esperança de Israel, ou a concretização das promessas de Deus, é retardada pela infidelidade do povo, que constantemente transgride a aliança feita com o seu Senhor. Assim, os termos e as imagens das promessas de Deus tornam-se cada vez mais espiritualizados. Daí decorre a promessa feita por Ele em Ez 11,19-20: “Eu lhes darei um só coração, porei no seu íntimo um espírito novo: removerei do seu corpo o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne, a fim de que andem de acordo com os meus estatutos e guardem as minhas normas e as cumpram. Então, serão o meu povo e eu serei o seu Deus”. Desta maneira, a aliança também se abre para outros povos que de coração sincero acolham a Revelação de Deus.

É neste sentido que progressivamente se firma a esperança de um Messias que transcende cada vez mais os conceitos de um rei humano. Apesar de ser filho do homem, Ele possui uma origem celeste. E como a realidade presente encontra-se corrompida por conta das constantes infidelidades do povo para com a aliança feita com Deus, Ele há de vir para restaurar o reino. Tal restauração pode ainda comportar a ressurreição dos mortos. Daí o conflito na época de Jesus entre os fariseus, que acreditavam na ressurreição dos que já morreram, esperando um Messias de origem misteriosa; e os saduceus, que não acreditavam na ressurreição e esperavam um Messias davídico, nascido em Belém. Isto nos leva a questão do “Dia do Senhor”.

Esta expressão derivada do próprio mundo judaico possui uma história bem significativa. Formou-se entre os judeus ameaçados e oprimidos por nações estrangeiras nos séculos IX/VIII a.C.; por ela exprimiam a expectativa de que num grande dia, o Dia do Senhor, Deus interviria em favor de seu povo, infligindo punição aos adversários de Israel, isto é, idólatras, por isso considerados injustos e imundos. Após o julgamento das nações, assim concebido, instaurar-se-ia na Terra o reino visível de Deus, abrangendo todos os povos sob o primado de Israel. Assim, uma nova era se iniciaria, era do Messias, do Grande Rei de Israel, caracterizada por paz e bonança paradisíacas. Esta nova era constitui a vitória do povo eleito, porém tal realidade se amplia para todas as nações em vista de sua conversão. Aí então se instaurará a vitória soberana e universal de Deus, felicidade para os justos e perdição para os ímpios.

Entretanto, desde que Jesus veio a este mundo, o Reino de Deus está presente entre nós, visto que Ele veio exatamente para nos trazê-lo, ainda que ele não tenha sido manifestado em toda plenitude de sua realidade. Da mesma forma, o juízo de Cristo já está em realização neste tempo presente. A proclamação final do juízo será apenas publicidade da sentença que na cotidianidade vamos pronunciando nós mesmos com a nossa vida de amor ou falta dele.

Todos serão julgados a partir de sua aceitação ou recusa de Cristo, a quem não vemos fisicamente, mas que se identifica com todos os que sofrem. Sendo assim, o próximo é o espelho no qual devemos recompor nossa imagem cristã, desfigurada pela falta de amor. Pois, “quem não ama o seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4, 20).

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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