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Penitência

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Em uma sociedade cada vez mais hedonista, em que a busca por prazeres e satisfações temporais tem se tornado cada vez mais voraz, a palavra penitência pode parecer retrógada, antiquada ou até mesmo um palavrão, o que acaba por afastar qualquer discurso ou mesmo atitude de austeridade. Esta realidade tristemente muitas vezes permeia a prática religiosa de católicos desprovidos de consistente catequese, que se deixam conduzir pela ânsia de satisfações compensatórias, dadas as dificuldades que já temos de lidar na vida cotidiana. E desgraçadamente há estranhos discursos em nosso tempo que vão ao encontro desta realidade, alimentando instintos primitivos e dando largas às paixões das mais inferiores em nome de uma aceitação de si mesmo naquilo que supostamente constituiria a própria identidade de cada indivíduo. Neste sentido, tudo que é obstáculo à satisfação humana deve desaparecer. Ora, este catolicismo laxo e fácil não se coaduna com a verdade do evangelho e nem com o próprio mistério de Cristo, cuja profundidade é revelada na cruz.

É evidente que a vida cristã é iluminada e conduzida pelo brilho da ressurreição do Senhor. Contudo, o caminho da ressurreição é o calvário, a cruz e a morte. São estes elementos que marcam a paixão de Cristo. E o que significa paixão? Paixão é amor total, radical, tão intenso que dói, que causa sofrimento. Por isso falamos em Paixão de Cristo, porque Ele se apaixonou pela criatura humana e assumiu este amor perfeito até as últimas consequências, como amor apaixonado, crucificado, mas no fim ressurreto. Pois este sofrimento não é prazeroso e nem tem um fim em si mesmo, mas é seguramente redentor. E, por isso mesmo, intimamente associado ao cristianismo.

Um documento papal ousado, profético e subversivo para estes tempos pós-modernos é a Constituição Apostólica Paenitemini, do Papa São Paulo VI, onde o Romano Pontífice recorda que a penitência é preceito divino e que a visão mais plena e profunda da Igreja e de sua relação com o mundo, alcançada a partir da conclusão dos trabalhos do Concílio Vaticano II, deve instigar os católicos de hoje a tal lei divina.

O texto começa com a citação bíblica de Mc 1, 15: “Fazei penitência e crede no evangelho”. Para Paulo VI estas palavras constituem, de certo modo, o compêndio de toda a vida cristã. Ao longo do documento o Sumo Pontífice recorda que nenhuma lei foi dada por Cristo sem que Ele mesmo por primeiro o fizesse ou cumprisse no contexto da dinâmica ou lógica do mistério de Sua encarnação. Antes mesmo de iniciar sua vida pública Ele jejuou 40 dias e 40 noites no deserto e sempre nos repete o convite: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. De maneira que não há outro caminho de seguimento a Jesus senão o da cruz. Ela é o instrumento através do qual nos configuramos à paixão e ressurreição do Senhor.

Na referida Carta Apostólica, Paulo VI ressalta os aspectos da penitência interior e também sacramental, sem, contudo, deixar de enfatizar o valor e a importância dos seus aspectos exteriores: “O caráter preeminentemente interior e religioso da penitência e os novos aspectos maravilhosos que ela assume ‘em Cristo e na Igreja’ não excluem nem diminuem de forma alguma a prática externa desta virtude, mas, pelo contrário, reafirma sua necessidade com particular urgência e incita a Igreja – sempre atenta aos sinais dos tempos – a procurar, para além do jejum e da abstinência, novas expressões mais adequadas à realização, segundo o carácter das várias épocas, da meta precisa da penitência”. E ainda: “A verdadeira penitência, entretanto, nunca pode prescindir também do ascetismo físico. Todo o nosso ser, de fato, corpo e alma (na verdade, toda a natureza, mesmo os animais sem razão, como a Sagrada Escritura frequentemente indica) deve participar ativamente neste ato religioso pelo qual a criatura reconhece a santidade e a majestade divinas. A necessidade da mortificação da carne também fica claramente revelada se considerarmos a fragilidade de nossa natureza, na qual, desde o pecado de Adão, carne e espírito têm desejos contrastantes. Este exercício de mortificação corporal –longe de qualquer forma de estoicismo – não implica uma condenação da carne que os filhos de Deus se dignam assumir. Pelo contrário, a mortificação visa a “libertação” do homem, que muitas vezes se encontra, por causa da concupiscência, quase acorrentado por seus próprios sentidos”.

Nestas décadas pós-conciliares, a Igreja continua a convidar sempre à conversão interior acompanhada do exercício voluntário de ações exteriores de penitência. Ela aponta as práticas de ascese e mortificação como remédio eficaz contra as más inclinações do coração ferido pela natureza decaída. Por isso, sem entrar em detalhes minuciosos, deixa ao bom católico a livre escolha de práticas apropriadas para todas as sextas-feiras do ano, evidentemente incluindo-se aí a antiga prática da abstinência de carne em memória da paixão e morte do Senhor, mas explicitando de forma mais precisa o jejum e a abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. De tal modo que se a lei divina prescreve a penitência, cabe a Igreja prescrever o tempo da penitência.

Entretanto, a penitência tem também uma dimensão social, de modo que o objetivo da prática penitencial jamais pode ser unicamente a realização pessoal no sentido de uma sensação meramente subjetiva de dever cumprido. Pois a penitência está intimamente associada à caridade em toda plenitude da palavra, de tal maneira que a penitência transcenda a esfera pessoal e subjetiva e repercuta no reino celeste sim, mas também na vida de outras pessoas na terra. A abstinência e o jejum geram uma economia, que deve ser revertida aos pobres, as práticas de ascese e mortificação devem nos fazer mais caridosos e misericordiosos com as limitações alheias e a nossas próprias fraquezas, devem nos fazer mais solidários em relação aos outros pecadores.

É Quaresma, tempo de penitência, de conversão e de libertação. Na liberdade de filhos de Deus podemos livremente escolher a modalidade e o uso das inúmeras práticas penitenciais de que dispomos e a que este tempo não nos faculta, mas obriga a todos os bons católicos. Todavia, estas práticas devem também ser impregnadas por um verdadeiro espírito de oração que eleve os corações a Deus. E a Campanha da Fraternidade 2021 com seu tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” é uma oportunidade a mais para o cumprimento da lei da penitência e da caridade, destruindo muros de separação e construindo pontes de diálogo em vista da comunhão.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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