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Para onde vão os mortos?

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Olá queridos irmãos!

Estamos nos aproximando do final de nosso ano litúrgico, bem como do fim de nosso ano civil. É verdade que ainda falta algum tempo para tal, mas este tempo nos leva inevitavelmente a pensar no fim da vida, da caminhada humana sobre a terra que se dá por meio daquela realidade que pode ser para alguns preocupante ou até mesmo repulsiva: a morte.

A Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja nos ensinam que toda a vida humana é cercada e conduzida pela misericórdia de Deus e que ele tem um plano de vida para cada um de nós. Porém, esta doutrina é bastante desconhecida, mesmo dos fiéis da Igreja, e, por isso, aparece por vezes como um mistério de medo. O pensar na outra vida traz muita questões e não podemos afrontá-las todas aqui. Mas queremos resumir as principais em uma pergunta: Para onde vão os mortos? 

Para responder à pergunta sobre a morte, é necessário primeiro considerar o plano de Deus sobre a vida do homem. Neste plano a morte não estava incluída. Embora o homem seja um ser de natureza material e, portanto mortal, por estar perto de Deus o homem gozava de plenitude de vida, equilíbrio das suas faculdades e alegria (Gn 1-2). Porém, por causa do pecado do homem, estas graças são perdidas e entre as consequências do pecado surge aquela mais cruel que será a morte (Gn 3).

A morte física surge como resultado daquela interior, do afastamento do homem em relação a Deus. Esta situação perdurou até que se realizou a obra salvífica de Cristo que com a sua cruz nos libertou do domínio do pecado e da morte. Agora o homem tem novamente o acesso a Deus e não como era antes, mas de maneira supereminente, como filho em Cristo, participando da vida do próprio Deus. Entretanto, algumas consequências do estado anterior continuaram, dentre elas a morte física, como oportunidade de luta e de escolha por Deus, pois o amor de Deus é dado a nós livremente e pede uma resposta igualmente livre. A partir disso, são diversos os destinos possíveis ao homem após sua morte e eles são determinados pela bondade de Deus e a liberdade humana. Vamos tratar de cada um.

Morte: Nos ensina a Escritura que após a morte, a despeito da degeneração natural do corpo subsiste um elemento espiritual que comumente chamamos alma. Não vamos tratar aqui do conceito de alma na bíblia, mas vemos que a crença na subsistência dela foi crescendo gradativamente no povo de Israel. Essa subsistência era pensada de um modo bastante negativo. Os mortos simplesmente estariam dormindo para todo o sempre, o que de algum modo também se pensava na cultura de diversos povos vizinhos. Tratava-se de uma espécie de subvida, onde nenhuma realização seria mais possível (Sl 87,11-13).

Aos poucos vai crescendo a esperança em uma vida após a morte, baseada em alguns elementos. Para citar somente um deles, deveria haver uma vida após a morte por uma questão de justiça. Este pensamento se formulava do seguinte modo: Deus é justo e promete dar a recompensa a todos os que lhe são fiéis. Acontece que em diversas ocasiões, notadamente no período dos macabeus, muitos chegaram até a morte por fidelidade à Lei de Deus. Mas se estes morreram, quando seriam recompensados por sua fidelidade heroica? Deste modo é necessário que haja na outra vida algum tipo de felicidade de que os justos possam gozar. Também são diversas as profecias de restauração que mostram a capacidade de Deus de restaurar e recompensar mesmo após a morte (Ez 37) a tal ponto que alguns santos nem mesmo morreriam (II Re 2,1-12). Assim nos ensina a liturgia da Igreja no prefácio das missas pelos fiéis defuntos: 

“Senhor, para os que crêem em vós, a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.”

Deste modo, podemos ter a certeza de que a vida não termina no túmulo, mas este é só o início de uma nova caminhada.

 

Juízo particular: A Escritura fala constantemente do juízo, principalmente na perspectiva do encontro com Cristo. Porém, afirma igualmente a retribuição imediata após a morte da fé preservada e das obras que se tenha realizado em vida a exemplo do que aconteceu ao bom ladrão (Lc 23,43). Por isso, a doutrina da igreja ensina que imediatamente após a morte comparecemos perante o tribunal de Deus e recebemos a recompensa de nossa aceitação ou rejeição a Ele. Assim, são errôneas as opiniões, como aquela protestante, de que os mortos estão dormindo e ressurgirão somente no último dia. É por isso que pedimos a intercessão dos Santos, pois sabemos que gozam já da presença divina.

 

Purgatório: Um primeiro destino possível após a morte e seu sequente juízo é o purgatório. Trata-se de um estado de purificação ultra terrenal (convém lembrar que falamos de céu, inferno e purgatório como lugares somente para facilitar nossa compreensão, mas todos estes são estados da alma após a morte baseados no “nível” de comunhão ou afastamento em que a alma esteja em relação a Deus.) onde a alma se prepara para o encontro com Deus. A Escritura e a Tradição da Igreja reconhecem que pode dar-se que uma alma escolha por Deus, mas morra ainda com imperfeições, isto é, sem aquele “nível” de fé e/ou amor que deveria ter por Deus e manifestado por meio de suas obras em vida.

Estas almas devem então passar por um estágio de purificação (a imagem mais comum utilizada para expressar essa realidade é a do fogo, dado que ele purifica alguns elementos com seu calor – especialmente os metais preciosos – e transforma gerando vida no caso dos alimentos) que se dá pelo desejo de chegar logo a comunhão plena com Deus, o que causa sofrimento na alma, embora ela esteja repleta de esperança. Esta doutrina, embora muito questionada especialmente em meios protestantes, encontra seu fundamento na Escritura – a passagem mais expressiva é aquela em que Judas Macabeu manda oferecer um sacrifício expiatório pelos mortos para que fossem absolvidos de seus pecados (2Mac 12,39-46) – e na Tradição da Igreja que sempre ofereceu sufrágios pelos defuntos. Por isso temos o piedoso costume de rezar pelas almas do purgatório, para que estes nossos irmãos alcancem a graça de Deus e, uma vez plenamente mergulhados nela, passem também eles a interceder mais eficazmente por nós.

 

Inferno: Dissemos anteriormente que o homem é chamado a fazer uma escolha por Deus. Porém, não podemos nos confundir quanto ao modo como se dá essa escolha. Se fizéssemos a qualquer pessoa a pergunta: Você quer viver eternamente em alegria junto de Deus ou no sofrimento eterno do inferno? Somente um louco não escolheria a Deus. Por isso, se percebe claramente que esta escolha não é somente de palavras, mas deve se concretizar na aceitação dos ensinamentos e do modo de viver que Deus nos propõe, na evangelização e nas obras de caridade em favor dos nossos irmãos. Em outras palavras, não basta chamar a Jesus de Senhor (Mt 7,21) pois a fé sem obras é morta (Tg 2,17). 

Chamamos inferno (do latim inferus que significa lugar inferior) o estado de afastamento de Deus ocasionado pela falta de fé voluntária ou pelo pecado mortal. É o estado de auto exclusão da presença de Deus e dos bem-aventurados, a rejeição total ao amor de Deus e à sua misericórdia que faz com que não queiramos participar da verdadeira vida, pois aquele que não ama permanece na morte (Jo, 3,14). Embora questionado por muitos, o inferno existe (Mt 7,13-14; 13, 41-42; 25,41) e constitui um estado eterno, sem volta. Ao ensinar-nos a doutrina sobre o inferno, a Igreja não visa incutir medo nos fiéis, mas recordar a responsabilidade que temos de buscar viver uma vida santa, de acordo com a palavra de Deus. 

Devemos dizer ainda uma coisa: afirmamos anteriormente que os destinos após a morte são fruto da bondade de Deus e de nossas escolhas. Como poderia no inferno haver alguma bondade? Também ali se manifesta a misericórdia de Deus que, mesmo sem desejar este destino para nós e tudo fazendo para que vivamos eternamente com Ele no céu – lembre-se simplesmente o fato de que foi pra isso que Jesus estregou a sua vida na cruz! – respeita a nossa liberdade e não nos obriga a aceitar sua oferta de amor se não a queremos. Deus é bom e respeita seus filhos, mas quer oferecer a todos o seu amor pra sempre.

 

Céu: Chegamos finalmente ao único destino querido por Deus para nós e pelo qual temos de lutar: o céu. Assim nos ensina o catecismo da Igreja Católica no número 1023:

 

“Os que morrem na graça e na amizade de Deus, e que estão totalmente purificados, vivem para sempre com Cristo. São para sempre semelhantes a Deus, porque o vêem “tal como Ele é” (1Jo 3,2), face a face (1Cor 13,12)”

O céu ou vida eterna é este estado de comunhão plena com Deus, com a Virgem Maria e com todos os bem aventurados conquistado a nós pela Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e no qual se encontra a única e plena realização do ser humano, “pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8,36). A Escritura nos fala do céu com inúmeras imagens: O grande banquete, casa do Pai, Jerusalém Celeste, festa de bodas. Curiosamente, embora este seja o destino desejado para nós por Deus, é aquele do qual menos podemos falar, pois é a posse plena de uma felicidade que nos é inimaginável. Como nos diz o apóstolo: “As coisas que Deus preparou para aqueles que o amam, os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou. Todavia, Deus no-las revelou pelo seu Espírito. (1Cor 2,9-10a)”. Nossa vida deve ser uma profunda gratidão a Deus por conhecer este mistério de fé, um constante empenho na evangelização, isto é para comunicar este mistério aos irmãos, e uma luta animada pela esperança do céu. Especialmente nos momentos difíceis devemos nos animar pensando como São Cipriano de Cartago:

Qual não será tua glória e tua felicidade: ser admitido a ver a Deus, ter a honra de participar das alegrias da salvação e da luz eterna na companhia de Cristo, o Senhor teu Deus (…) desfrutar no Reino dos Céus, na companhia dos justos e dos amigos de Deus, as alegrias da imortalidade adquirida.

 

Juízo Final: também chamado de Juízo Universal, este ocorrerá ao retorno de Cristo. À pergunta sobre o porquê de um juízo final, uma vez que todos são já julgados imediatamente após sua morte, como dito anteriormente, deve-se responder recordando que ainda há promessas de Deus a serem cumpridas, mesmo depois de tudo o que já dissemos. No dia do juízo haverá a ressurreição da carne (Jo 5,28-29; Mt 25, 31-33.46; At 24,15), como rezamos no Credo, e todas as nações serão reunidos diante de Deus.

Neste dia teremos a visão plena de toda a história humana e conheceremos em profundidade todas as consequências das ações humanas – da bondade dos bons e da maldade dos maus – e, sobretudo, vamos compreender o porquê dos acontecimentos em nossa vida e perceberemos finalmente como o amor de Deus triunfa de toda a maldade e dor. Se diz que neste dia os justos ressuscitarão para a vida eterna e os maus para a condenação eterna porque, embora já esteja definida a sua sorte, tanto as alegrias como os sofrimentos serão intensificados pela presença do corpo e pelo ainda maior conhecimento da bondade de Deus (os justos vão se alegrar ainda mais pela bondade de Deus e os maus se entristecer ainda mais pelo que perderam!). Enfim se dará o final “quando Deus será tudo em todos!” (1Cor 15,28).

Que a recordação desta doutrina nos renove a esperança, especialmente diante dos momentos de sofrimentos pela morte dos que nos são queridos, da saudade ou de medo da nossa própria morte. Que ela também renove nosso amor pela Eucaristia, pois ela é antecipação do céu e, como rezamos no prefácio da missa, ali estão presentes conosco todos os que já morreram e estão na presença de Deus. Diante de Deus todos vivem em Cristo, ao qual seja dada a honra, a glória, o louvor e a adoração para sempre. Amém! 

 

Pe. Denis de Souza Bispo

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