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O silêncio de São José

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Quero dedicar este editorial à admirável figura de São José, mais precisamente a uma virtude tão eloquente que percebemos no seu testemunho de obediência e fidelidade: o silêncio.

Antes de tudo, é preciso recordar que dos quatro evangelistas, São Mateus é quem oferece o melhor destaque a José, ressaltando que através dele a descendência davídica de Jesus estava legalmente garantida, realizando assim aquilo que previam a respeito do Messias as Escrituras, que por sua vez profetizavam que devia ser o Cristo um descendente de Davi. Daí o título de Pai Putativo do Senhor atribuído a São José, ou seja, trata-se de uma paternidade jurídica, de modo que se José está excluído da concepção virginal de Jesus, da qual o autor é o Espírito Santo, por quem Maria foi verdadeiramente desposada, ele não o está do exercício do ofício da paternidade do Menino, já que ele tomou consigo a Sua Mãe como esposa. Assim, se por um lado José não teve participação alguma na concepção virginal de Jesus, por outro ele é protagonista no seu nascimento pela Lei, tanto que o evangelista São Mateus deixa muito claro que, conforme ordenamento do anjo, cabe a José dar o nome Jesus ao Menino, um direito exclusivo do pai, conforme a lei judaica. Neste sentido, o título de “Pai Putativo” é muito mais significativo e correto que o título errônea e mais recentemente usado de “Pai Adotivo”, até mesmo porque a lógica e a dinâmica de uma paternidade adotiva é totalmente diferente daquela putativa do evangelho. Outro elemento jurídico também de grande importância que envolve a atuação de José e que Mateus ainda põe em relevo é a sua autoridade incontestável de chefe da Sagrada Família, com todos os seus direitos e atribuições. Pois, é a ele que o anjo aparece e fala, a ele é revelado o destino do desterro, assim como também a ele será revelado mais tarde o momento do retorno; a ele tudo está sujeito: “Toma o Menino e a Mãe” (Mt 2,13). Porém, o papel de José não pode ser reduzido apenas a este aspecto legal. Até mesmo porque uma leitura mais atenta do texto demonstra que o evangelista quis ir muito mais além. 

José é modelo de varão santo e justo (Mt 1,19) que, em perfeita comunhão de fé e amor com Maria, acolhe o Filho de Deus humanado e cuida de sua educação e desenvolvimento humanos, inclusive ensinando-lhe a profissão de carpinteiro, como era comum na época a transmissão de ofício do pai para filho.

Tanto em Mateus quanto nos outros três evangelhos não é possível encontrar uma única palavra pronunciada por José. Ele não fala, mas age. É o santo varão da ação e do silêncio. Porém, não silêncio vazio, sem conteúdo interior, mas silêncio pleno de contemplação do mistério de Deus em atitude de total disponibilidade à vontade divina; pleno de fé, que orienta seus pensamentos e ações. Silêncio no qual ele acolhe a Palavra de Deus em seu coração e a coloca em prática em atitude de obediência e fidelidade ao Senhor, assim como Maria. Silêncio pleno de oração, adoração, amor, disponibilidade em fazer a santa vontade de Deus e total, radical e incondicional confiança na providencia divina. Quis assim o Pai escolher tal fiel e prudente administrador de sua casa.

Sobre São José, o Papa Bento XVI chega a afirmar que “não é exagero pensar que precisamente do pai José, Jesus adquiriu no plano humano aquela vigorosa interioridade, que é o pressuposto da justiça autêntica, da justiça superior, que um dia ele ensinará aos seus discípulos”. O Papa João Paulo II, que era muito devoto de São José, também nos deixou uma prodigiosa meditação a ele dedicada na Exortação Apostólica Redemptoris Custos, “Guardião do Redentor”. Aí o Santo Padre nos recorda que “os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José fez; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas ações envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. José estava cotidianamente em contato com o mistério escondido desde todos os séculos, que estabeleceu sua morada sob o teto da sua casa”. 

São José no silêncio das próprias ações sacrificou sua existência inteira às exigências do Reino de Cristo, a quem ele recebeu em sua casa. Do silêncio de sua vida interior ele conseguiu haurir força para tomar as grandes decisões de sua vida, como fez ao renunciar a sua vontade pessoal para fazer a vontade divina, assim como também ao renunciar à legítima vocação humana à felicidade matrimonial para se dedicar ao cuidado de Maria e Jesus na vivência de um admirável amor virginal. Uma decisão e ação deste porte só poderiam ser tomadas por um coração verdadeiramente livre, capaz de sacrificar a própria existência para assumir em sua vida os planos de Deus com prontidão de vontade. Ora, isto nada mais é do que louvável exercício de fé e devoção!

Lamentável que muitos de nós já tenhamos perdido o apreço pela virtude do silêncio. Muitas de nossas próprias celebrações se tornaram demasiadamente ruidosas e barulhentas, em que muito se fala, canta, grita e pouco se ouve. Já não mais suportamos o silêncio; ele incomoda. Rádio, TV, internet, tudo nos aparta do silêncio. Porque nele nos deparamos com os nossos próprios dramas diante de Deus e de nós mesmos. O silêncio nos mostra o quanto somos rebeldes e apegados aos nossos quereres mesquinhos e vazios, aos quais devemos aprender a renunciar para o verdadeiro exercício da liberdade de assumir o querer de Deus em nossas vidas. O silêncio que tanto nos incomoda e fere deve ser assumido por nós com mais seriedade e maturidade de fé, porque ele é verdadeiramente libertador.

 Num mundo de tantos ruídos, que não mais conhece e, por isso mesmo, não favorece o recolhimento e o silêncio que nos possibilitam ouvir a voz de Deus na intimidade da oração, cultivemos o silêncio de São José na vida interior, para que Jesus, por nós acolhido neste Natal, possa fazer morada em nosso coração e permanecer em nossa vida.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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