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O Silêncio de Deus

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Nós somos cristãos, tementes a Deus, cremos na redenção de Jesus Cristo, mas os sofrimentos e as dores que a pandemia nos trouxe, leva nossos corações a certas dúvidas e questionamentos, que penso devem ser dirigidos, antes de tudo, a Deus.

Papa Francisco, na última quarta-feira dia 19/05/2021, dizia na sua audiência geral que as vezes se faz necessário fazer a oração do “por quê?”: “não se esqueça da oração que pergunta ‘por quê?’. É a oração das crianças quando começam a não entender as coisas, o que os psicólogos chamam de ‘fase do por quê’, porque a criança pergunta ao pai: ‘Papai, por quê? Papai, por quê? Papai, por quê?’. Mas atenção: ela não escuta a resposta do pai. O pai começa a responder e a criança vem com outro ‘por quê?’. Ela quer apenas chamar a atenção do pai para ela. E quando ficamos um pouco bravos com Deus e começamos a perguntar ‘por quê?’, estamos atraindo o coração do nosso Pai para as nossa miséria, para nossa dificuldade, para a nossa vida. Mas sim, tenha a coragem de dizer a Deus: ‘Mas por quê?’. Porque às vezes ficar um pouco zangado faz bem, porque desperta aquela relação de filho ao Pai, de filha ao Pai que devemos ter com Deus.”

Neste sentido, porque muitas vezes nos sentimos sozinhos, impotentes e até mesmo abandonados diante de tanto sofrimento e dificuldades, devemos dirigir a Deus esta oração das crianças: “Pai, por quê?”. Ou mesmo a oração do Crucificado: “Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”. Em geral, a primeira sensação que temos é a do silêncio de Deus, algo também refletido nos salmos, como é o caso do Salmo 43, 24-25: “Acordai, Senhor! Por que dormis? Despertai! Não nos rejeiteis continuamente! Por que ocultais a vossa face e esqueceis nossas misérias e opressões?”

Muitos foram os santos, que a despeito de toda a sua fé, caridade e mística, também experimentaram mais intensamente este “silêncio de Deus”. Como eles, devemos também suportá-lo, mas sem deixar de clamar “Acordai, Senhor! Despertai!”. Até mesmo porque se temos o coração verdadeiramente aberto e sensível, a presença de Deus sempre será evidente para nós, ainda que seja uma presença silenciosa. Pois há momentos em que Deus nos responde de forma mais imediata e clara, mas há outras em que Ele não nos responde, pelo menos em conformidade com os nossos esquemas. Entretanto, o Deus silencioso sempre fala, sempre se revela. E quer que nós sejamos testemunhas de Sua presença no mundo, como luz em meio às trevas do mal.

De fato, muitas vezes Deus é silencioso neste mundo, mas por outro lado, não podemos ser “surdos” quando ele nos fala e se revela em tantas ocasiões da nossa cotidianidade. Consideremos a maravilha da criação, as artes, a liturgia, a missão evangelizadora, a vida em família, as amizades na fé, a caridade, as ações humanitárias e os inúmeros atos heroicos, principalmente nesta gravíssima crise mundial da pandemia da covid-19. É Deus mesmo que aí em tudo está a inspirar o querer, o fazer e a se revelar.

Deus é Bom e Belo; fala e se revela na bondade e beleza das criaturas. O que é mal e tenebroso não vem de Deus, vem da ausência de Deus, muitas vezes expulso dos corações e das realidades sociais e cotidianas pelo próprio ser humano, que opta pelas obras das trevas, por vezes sem se dar contas de que suas ações são em última análise associação para com o chefe deste mundo, que nos aparta de Deus e uns dos outros.

O próprio coração do ser humano é testemunha da presença silenciosa, porém eloquente, de Deus neste mundo, particularmente nestes tempos de tantas perdas e dores. São muitos os corações extremamente bondosos, caridosos e sensíveis ao sofrimento alheio. Recordemo-nos dos médicos, enfermeiros, voluntários que estão à frente do combate contra a covid-19; recordemo-nos dos sacerdotes que se empenham no conforto espiritual dos doentes e das famílias enlutadas; recordemo-nos ainda das inúmeras ações humanitárias em prol daqueles que sofrem com as graves consequências econômicas da pandemia. Em todas estas realidades Deus está presente e fala-nos abertamente, talvez até mesmo de forma tão intensa como em Isaias 42, 14: “Muito tempo guardei silêncio, permaneci mudo e me contive. Mas agora grito, como mulher nas dores do parto; minha respiração se precipita”.

O problema é que nós somos demasiadamente vaidosos para acolher o mistério de Deus na simplicidade da vida cotidiana como ele se revela. Ordinariamente queremos as grandes teofanias extraordinárias, bem aos moldes dos nossos esquemas mentais supercondicionados. Isto me faz lembrar uma passagem de Santo Agostinho nas suas Confissões, quando o Bispo de Hipona conta que leu as Sagradas Escrituras uma primeira vez, mas isto não lhe foi nada fecundo ou nada lhe disse, pois ele afirma que as Escrituras é recinto de porta baixa, em que para se entrar é preciso inclinar-se, ao passo que ele tentara adentrar de postura erguida e inflexível, dada a sua altivez intelectual.

Deus silencioso está presente em nossas vidas assim como o Cristo está no sacrário; não naquela forma substancial, porém não menos real. Ele pode parecer dormir, como em Mc 4, 35-41, quando dormia na parte de trás da barca sobre um travesseiro e foi acordado pelos discípulos que lhe disseram: “Mestre, não te importas que estejamos perecendo?” Ele se levantou e repreendeu o vento e o mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento parou, e fez-se uma grande calmaria. Jesus lhes disse então: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. Se nós questionamos o Senhor com tantos “por quês?”, Ele nos questiona unicamente quanto a nossa fé na agitação do mar da vida.

Seguramente o Senhor nos acompanha com solicitude, mas sua presença em muitas ocasiões não é manifesta em conformidade com as nossas referências humanas, na maioria das vezes condicionadas. Mas se tivermos um coração verdadeiramente aberto e atento, perceberemos sua eloquente presença na simplicidade de ações que fazem a diferença na vida cotidiana de quem sofre.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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