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O sepulcro vazio e as aparições do ressuscitado

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Deus manifestou-se verdadeiramente no mistério de Jesus! E porque ele ressuscitou algo de novo aconteceu no mundo e na história humana, mudando radicalmente não apenas a situação do ser humano, mas também a situação de toda a criação. É exatamente isto o que o sepulcro vazio e as aparições do Ressuscitado querem nos revelar.

Entretanto, já há algum tempo que surgem no meio intelectual erros nefastos que tendem a remover o dado sobrenatural e histórico dos relatos evangélicos a respeito da ressurreição do Senhor, a partir de novas narrativas materialistas e racionalistas que muitas vezes também permeiam as pregações nas comunidades.

A ressurreição não é descrita nos livros sagrados do Novo Testamento como um fato ocorrido de modo preciso, pois não houve testemunhas oculares. Porém, descrevem a realidade do sepulcro vazio e das aparições do Ressuscitado. A despeito do que muitos podem pensar, o sepulcro vazio e as aparições do Ressuscitado são sim fatos históricos.

Comecemos pelo sepulcro vazio! Este fato é recomendado como histórico porque narrado pelos quatro evangelhos, que destacam o papel de testemunhas femininas, em lugar dos apóstolos, a despeito da inadmissibilidade desta categoria de testemunho, conforme a lei judaica tradicional, segundo a qual, o testemunho de mulheres não tinha valor algum. Ora, quem quer contar uma “boa mentira” para as comunidades, que são fundadas na doutrina dos apóstolos, não humilharia estes homens desta forma de tal modo a tirar-lhes o privilégio de serem as primeiras testemunhas da ressurreição. Os quatro evangelistas também usam a expressão “o primeiro dia da semana”, e não aquela mais teológica usada pelo próprio Senhor: “o terceiro dia”. A narração do sepulcro vazio não tem nada de apologética, haja vista a reação negativa das mulheres e dos apóstolos e as divergências sobre uma série de particularidades. Além do mais, seria impossível proclamar a ressurreição de Jesus em Jerusalém se o sepulcro não estivesse vazio, visto a sua localização precisa próximo dos muros da cidade, ou seja, isto poderia ser facilmente verificado pelas pessoas. Porém, há quem diga: “mas há a narrativa judaica, segundo a qual o cadáver de Jesus foi furtado”, no entanto, até esta narrativa supõe a realidade do sepulcro vazio. Neste sentido, o sepulcro vazio é o elo de união entre a crucificação e a ressurreição, o que identifica o crucificado com o ressuscitado, ou seja, são a mesma e única pessoa, não se tratando, portanto, de um Jesus histórico diferente de um Jesus da fé.

Quanto às aparições do Ressuscitado, estas, diferentemente dos evangelhos, estão presentes no anúncio kerigmático da igreja primitiva, sendo mencionadas, para além dos evangelhos, em muitas passagens do Novo Testamento, mesmo com diferenças em relação aos beneficiários e aos locais de ocorrência. Contudo, estas aparições, chamadas pela teologia de cristofanias, ou seja, manifestações do Cristo, estão presentes em diversas tradições textuais, o que as torna testemunhos importantíssimos já na tradição oral, anterior, portanto, à escrita. E há aqueles que argumentam que estas cristofanias tiveram apenas função missionária, contudo há testemunhas que não se empenharam nesta função, como é o caso das mulheres e dos discípulos de Emaús.

Com efeito, será a partir do sepulcro vazio e das aparições do Ressuscitado que os apóstolos darão o testemunho missionário que culminará com o próprio martírio. Ora, se a ressurreição não fosse uma realidade concreta e histórica, os discípulos certamente não a teriam sustentado em fidelidade a Jesus até o derramamento de sangue, era, portanto, algo que lhes conferia sentido à vida.

A profundidade destes fatos recordados e liturgicamente atualizados neste tempo pascal nos faz redescobrir a grandeza do mistério da redenção. Entretanto, não podemos nos reter apenas na alegria própria deste tempo refletida nos muitos “aleluias” da liturgia e nas confraternizações pascais com amigos e familiares, neste ano bastante comedidas e cheias de restrições por causa da pandemia da covid-19.

Celebrar a Páscoa do Senhor Jesus é garantia da superação do mal e dos obstáculos que marcam e acompanham a vida de cada cristão e da própria Igreja, como comunidade dos discípulos do Senhor. O Domingo da Ressurreição é antes de tudo um dia de louvor e ação de graças, porque em Jesus Ressuscitado temos a certeza de superar tudo o que nos escraviza, oprime e mata.

O novo povo de Deus que Jesus constituiu ao preço de sua paixão e morte de cruz é hoje acometido por várias situações tenebrosas: doenças, desemprego, miséria, insegurança, injustiças de toda ordem, desinformação, manipulação midiática, relativismo moral, etc. Em outros tempos, talvez pelos resquícios do contexto de cristandade ainda existentes até pelo menos meados do século XX, a Igreja era uma voz retumbante na sociedade, em que a própria mídia queria ouvi-la, sobretudo nos momentos de crise, e fazer ecoar sua voz, como a de uma mãe sábia e caridosa para com todos. Contudo este cenário mudou bastante nas últimas décadas; a isto se deve em boa parte ao próprio relativismo endêmico que obscurece as mentes e torna as consciências desorientadas.

O relativismo que acomete o universo religioso mudou radicalmente o comportamento de muitos cristãos, de tal maneira que muitos pensam que podem viver o cristianismo a seu modo, optando por interpretações livres e das mais díspares das Sagradas Escrituras. E isto acaba sendo corroborado por maus pastores que em pregações e catequeses não transmitem e ensinam a doutrina da Igreja, ou seja, a doutrina apostólica, mas preferem expor e ensinar opiniões pessoais desprovidas de fundamentos bíblico, histórico e teológico, sendo até mesmo capazes de racionalizar o dado sobrenatural dos relatos evangélicos e relativizar a moral cristã. Neste contexto, em que já não há mais aquelas pregações substancialmente idênticas em seus conceitos, somente o retorno à Verdade e ao Caminho pode conduzir à Vida manifesta na Ressurreição.

A Igreja já passou por muitas crises ao longo destes dois mil anos de sua existência, inclusive, crises mais graves que esta de nossos tempos, o que para nós soa como consolador, visto que se as crises do passado foram superadas – diga-se de passagem, muitas vezes deixando traumas e até mesmo cismas no corpo da Igreja – sem dúvida alguma a atual crise será superada. Porém, os erros devem ser o quanto antes corrigidos, sobretudo a partir da correta e honesta interpretação do Concílio Vaticano II, muitas vezes interpretado de forma equivocada ou desonestamente instrumentalizado em favor de ideologias materialistas e, por isso mesmo, contrárias ao evangelho.

A missão que Cristo confiou à Igreja não é de cunho material ou social, mas é também seu dever fazer o evangelho iluminar a totalidade da vida humana, transformando estruturas, contudo a partir da conversão à pessoa de Jesus Ressuscitado. Pois, não há paz e justiça social sem conversão a Jesus. Toda pastoral social da Igreja está alicerçada nesta dinâmica da conversão ao Senhor, na medida em que procura formar e orientar as consciências a partir do evangelho, para que a família humana seja mais fraterna e justa. Neste sentido, o papel dos pastores é de serem autênticos educadores na fé, na caridade e na verdade, haja vista ser sua missão essencialmente espiritual. Filantropia, qualquer pessoa que tenha o mínimo de empatia pelos que sofrem é capaz de fazer, mas pastorear almas e revelar o Ressuscitado nos sacramentos, só o sacerdote com um coração verdadeiramente de pastor é capaz de fazê-lo.

O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos conduz e orienta a Igreja nestes tempos de crise para que ela dê o autêntico testemunho do Ressuscitado em continuidade à tradição apostólica. Que a esperança e a alegria que brotam da liturgia pascal inundem nossos corações. E que nossa vida, já tão marcada pela condição decaída, seja iluminada e glorificada pela ressurreição de Jesus.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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