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O sentido teológico da consagração da Rússia

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No último dia 15 de março a Sala de Imprensa da Santa Sé anunciou em nota: “Na sexta-feira, 25 de março, durante a Celebração da Penitência que presidirá às 17h na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco consagrará a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. O mesmo ato será realizado, no mesmo dia, em Fátima pelo esmoleiro do Papa, cardeal Konrad Krajewski, enviado do Santo Padre.” A data escolhida é a da solenidade da Anunciação do Senhor, data mais que oportuna. Pois foi na Anunciação que Maria deu a Deus o seu sim (fiat), foi desposada pelo Espírito Santo e o Verbo de Deus se fez carne em seu ventre. Foi exatamente aí que Maria acolheu em seu coração e seio imaculados o mistério divino agora encarnado.

O Papa Francisco será o 4º Sumo Pontífice a consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Antes dele foram Pio XII, Paulo VI e João Paulo II. Pio XII o fez por duas vezes, a primeira foi em plena Segunda Guerra Mundial, quando ele consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria através de uma mensagem de rádio na véspera de Todos os Santos de 1942; a segunda na festa dos Santos Cirilo e Metódio, “Apóstolos dos Eslavos”, em 1952 numa carta apostólica dirigida ao povo russo, confiando a Rússia e o seu povo ao Imaculado Coração. Mas ainda não era do jeito solicitado pela Virgem. Depois de Pio XII foi Paulo VI, ao final da terceira sessão do Concílio Vaticano II em novembro de 1964, quando o Pontífice, acompanhado de todos os bispos presentes renovou a consagração do mundo inteiro ao Imaculado Coração de Maria. Depois de Paulo VI foi João Paulo II, que na solenidade da Anunciação de 1984, na Basílica de São Pedro, consagrou o mundo inteiro ao Imaculado Coração de Maria, convidando todos os bispos a unirem-se espiritualmente a ele em oração. No ano 2000, o Arcebispo Tarcísio Bertone, então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, ao revelar a terceira parte do segredo de Fátima, afirmou que a Irmã Lúcia, numa carta de 1989, confirmou que este último ato de consagração correspondia ao que Nossa Senhora queria.

Em 13 de julho de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial e meses depois de iniciada a Revolução Russa, revolução comunista que perseguiu a Igreja, cerceou direitos, tirou liberdades e a muitos matou, a Virgem Santíssima aparecia pela 3ª vez aos três pastorinhos em Fátima, Portugal, e pedia pela primeira vez a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e revelava a devoção da comunhão reparadora com os seguintes termos: “Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem  de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior (…). Para impedir, virei pedir a consagração  da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas; por fim, o meu Imaculado Coração triunfará! O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. Anos depois Nossa Senhora cumpriu a promessa feita e de fato retornou para pedir a consagração da Rússia. Isso aconteceu em 13 de junho de 1929, em Tui, na Espanha, no convento das Irmãs Doroteias, onde Lúcia ingressara na vida religiosa. Aí Nossa Senhora disse: “É chegado o momento em que Deus pede ao Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação; sacrifica-te por esta intenção e ora”.

Impressiona o fato de que Lúcia em 1917 não tinha a menor noção da geopolítica europeia naquele momento. Ela era apenas uma criança, pastora, inculta que vivia no interior de Portugal. Ela mesma confessa que sequer conhecia o nome Rússia: “Até então, só tinha ouvido falar dos galegos e dos espanhóis, não sabia o nome de nenhum país. Mas o que percebíamos durante as aparições de Nossa Senhora ficava de tal modo gravado em nós que nunca esqueceríamos. Por isso é que eu sei bem, e com certeza, que Nossa Senhora falou expressamente da Rússia em julho de 1917”.

A consagração da Rússia nos reporta à teologia da aliança presente nas Sagradas Escrituras. Consagrar significa tornar sagrado, santo, a partir de algo que já é sagrado e santo por excelência. O ato de consagrar algo ou alguém é oferecer a Deus aquilo ou alguém que está sendo consagrado, comparticipando-o de sua suprema santidade. Neste sentido, consagrar a Rússia, primeiro país comunista e, por isso mesmo, avesso à liberdade e à religião, é colocá-la em intimidade com Deus, a fim de que reencontre o caminho da liberdade, da fraternidade, da paz e, sobretudo, da autêntica religiosidade, que respeita o direito das nações, das pessoas e, sobretudo, dos pobres.

A consagração é sinônimo de aliança e pertença: “Agora, pois,  se obedecerdes a minha voz, e guardardes minha aliança, sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda terra é minha, mas vós me sereis um reino de sacerdotes e uma nação consagrada. Tais são as palavras que dirás aos israelitas” (Ex 19, 5-6). Neste sentido, o ato de consagração da Rússia é reconhecimento da soberania e domínio de Deus sobre todo o país, seu governo, povo e instituições. Consagrar é ainda santificar. Jesus, antes de celebrar a nova e definitiva aliança reza ao Pai: “Santifico-me por eles para que também eles sejam santificados pela verdade” (Jo 17, 19).

E como esta consagração é especialmente colocada aos cuidados de Maria, tal ato também constitui a reafirmação solene da mediação universal de Nossa Senhora e de seu Imaculado Coração, onde ela guardava os tesouros do discipulado e da convivência como seu divino filho Jesus. Foi a partir do Imaculado Coração de Maria que brotou o seu fiat apaixonado, que valeu a entrada da salvação no mundo, exatamente por ocasião da Anunciação, cuja data (25/03) é agora escolhida para esta dupla consagração (Rússia e Ucrânia) a ser realizada pelo Papa Francisco neste momento crucial da história da humanidade, que novamente se vê ameaçada pelo terror da guerra.

O fiat que brotou do Coração de Maria foi a resposta mais perfeita e apaixonada que uma criatura já deu ao Criador no seu desígnio de salvação para com toda a humanidade. O seu Imaculado Coração é modelo de generosidade, pureza e obediência para todos os discípulos de Cristo, que quer glorificar diante de todos aquela a quem Ele se associou para realizar a salvação do mundo. A própria devoção da comunhão reparadora quer reparar os pecados cometidos contra o Coração de Maria em vista da vitória final sobre o pecado e o processo de ateização comunista: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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