fbpx

O carnaval

 em Artigos

É chegado o carnaval! Festa popular das mais importantes do país e que compõe a própria cultura brasileira e mais ainda a carioca. As rodoviárias e aeroportos das cidades com milhares de passageiros indo e vindo, trânsito intenso com pessoas chegando e saindo da cidade na busca de aproveitar ao máximo o feriado estendido, as praias lotadas, nas ruas milhões de foliões. Há aqueles que buscam mais tranquilidade em sítios e fazendas junto da família e ainda há aqueles que buscam os retiros espirituais em vista de uma maior intimidade com Deus. Mais todos buscam a mesma coisa: a alegria, o contentamento, o bem-estar, a satisfação. Porém, por caminhos diversos. 

A alegria é nota marcante do carnaval. As brincadeiras, as danças, as canções… tudo deve conduzir à alegria própria deste período. Até as escolas de samba têm este papel social e cultural com os seus desfiles fabulosos a cada carnaval, mas também com suas diversas atividades culturais e assistenciais em favor da população mais desfavorecida ao longo de todo o ano. Entretanto, a alegria que todo ser humano quer, busca e é capaz de produzir, é antes de tudo expressão do desejo de felicidade. E o que é a felicidade?

Ora Santo Tomás de Aquino no século XIII procurou teorizar a felicidade formulando um conceito, ou mais precisamente uma definição. Para o Doutor Angélico a felicidade é um desejo natural e comum a todo ser humano. Porém, inserido no coração do homem pelo próprio Criador, a fim de que a criatura humana pudesse encontrá-Lo e ser verdadeiramente feliz. Neste sentido, a felicidade é o objetivo maior e fim último da própria vida, única realidade capaz de dar-lhe sentido. Por isso, o ser humano empenha toda a sua vida na busca pela felicidade, que em última análise, está naquele mesmo que infundiu este desejo no coração de cada um.

Entretanto, para chegar a esta concepção conclusiva a respeito do tema, Santo Tomás de Aquino procurou avaliar as concepções de felicidade recorrentes em sua época. Percebeu que no seu tempo havia compreensões que identificavam a verdadeira felicidade com os bens materiais, com a honra, com o poder, com os prazeres do corpo e muito mais. Contudo, Santo Tomás considerou tudo isso como meios inapropriados para uma vida deveras feliz. Pois estes meios nada mais são que uma falsa e fugaz percepção de felicidade. Mas, se por um lado o Doutor Angélico identifica a felicidade completa e verdadeira com a beatitude, e por isso mesmo a felicidade completa não está ao alcance do ser humano; por outro, ele reconhece que nesta vida é possível uma felicidade parcial e incompleta. Com efeito, a inclinação do homem para a felicidade não se satisfaz por completo nas coisas deste mundo, pois nelas se encontra apenas uma parte do bem. O conjunto de todos os bens está em Deus mesmo, que satisfaz por completo o desejo humano de felicidade. Os bens parciais que temos neste mundo são apenas capazes de trazer um pouco de alegria e satisfação passageiras para esta nossa vida também passageira já tão marcada por tantas agruras.

Neste sentido, o carnaval mesmo sendo uma alegria passageira e fugaz, capaz de alegrar a vida já tão sofrida do nosso povo, pode ser aproveitado pelo bom católico? É evidente que sim, desde que não nos leve ao pecado, desde que as brincadeiras, danças e canções não estejam em claro desrespeito à lei moral e aos símbolos religiosos. Ocorre que muitos são aqueles que por ignorância, mau uso da liberdade ou mesmo por verdadeira e resoluta negação a Deus, buscam satisfazer o desejo de felicidade inerente ao coração humano por vias que conduzem à diminuição da dignidade moral da pessoa humana, mais ainda da mulher, frequente e miseravelmente reduzida a um pedaço de carne. Esta via é a do erotismo, que no passado fez do Rio de Janeiro símbolo do carnaval da nudez, do erotismo e da promiscuidade, tornando esta cidade um dos principais destinos do turismo sexual. Este carnaval do erotismo, da degradação moral e da irreverência, que também atinge os símbolos religiosos do patrimônio da fé da maioria dos brasileiros, é sinal de grave desumanidade com gravíssimas consequências para a vida social. 

Entretanto, é também importante ressaltar as manifestações festivas legítimas, que em nada ofendem a dignidade, a moral, o bom senso e a vida alheia. Há muitos ambientes familiares de lazer sadio seja em recintos fechados ou em praças públicas. São várias as comunidades paroquiais que há décadas realizam estas manifestações legítimas para as famílias da paróquia, por exemplo. Da mesma forma, são muitos os que neste período aproveitam para o descanso e o lazer com familiares e amigos. E ainda há aqueles que se retiram em eventos de espiritualidade que conduzem à intimidade com o Senhor. Este é o outro lado do carnaval que a grande mídia não divulga, mas que contrasta com a degradação moral da cidade veiculada para todo o mundo pelos meios de comunicação em massa.

O carnaval também é oportunidade de geração de emprego e divisas para a cidade e para as famílias. São milhares de pessoas empregadas pelas escolas de samba, pela rede hoteleira, restaurantes e por tantos outros estabelecimentos neste período, o que é questão de sobrevivência para uma cidade que passa por gravíssima crise financeira, com elevados índices de desemprego e poucas oportunidades para quem precisa trabalhar. Há ainda aqueles que aproveitam também da informalidade para gerar uma renda extra para a família, seja através do serviço ambulante nas praias e blocos, seja através das latinhas de bebidas descartadas pelos foliões. 

Enfim, o carnaval na cidade não pode e nem deve ser demonizado ou reduzido aos seus graves elementos negativos. Ele é bom para a cidade e para os cariocas, tanto no aspecto econômico quanto no social, pois lazer não é perda de tempo, mas justa necessidade humana. Contudo, há que se promover e propagandear os outros caminhos de se aproveitar este período; caminhos alheios ao erotismo, ao alcoolismo, às drogas, que geram consequências nefastas para a cidade, são estes os caminhos da restauração moral e espiritual, que mais uma vez exige dos cristãos o comprometimento com a evangelização e com a promoção da dignidade de cada ser humano. Somente assim o carnaval será festa popular capaz de trazer verdadeira alegria para nossa vida já tão marcada pela natureza decaída.

 

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

Entre em contato conosco

Por favor escreva sua mensagem aqui:

0

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar