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Natal na pandemia

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Por mais numerosas e irreparáveis que sejam as perdas que a pandemia da COVID-19 tenha nos imposto neste ano tão difícil para a humanidade, a celebração do Natal do Senhor traz algo de positivo aos corações. O clima da noite de Natal torna-a diferente de todas as outras noites, mesmo com todo o consumismo e a dessacralização, que muitos procuram perfidamente impor a esta data, ela naturalmente deixa transparecer os valores cristãos que estão enraizados na cultura ocidental. Até aqueles que não creem, ou são ao menos indiferentes ao sagrado, também são tocados por esta atmosfera que tem sua fonte e fundamento na luz que brota da gruta de Belém e ilumina os corações com a esperança de dias melhores.

Celebramos a Natividade do Senhor em meio a uma das maiores crises, senão a maior, que esta geração já conheceu. E isto é para todos nós um sinal e um desafio à fé para recapitularmos o verdadeiro sentido do Natal e nos alegrarmos, malgrado todas as provações, tribulações e perdas que a COVID-19 tem nos imposto.

Quaisquer que sejam as ideias, convicções ideológicas, filosóficas ou religiosas, não há ser humano a não reconhecer que o nascimento de Jesus de Nazaré inaugura uma nova etapa na história da humanidade, que a partir de então passa a ser dividida entre antes e depois de Cristo. É um marco ocorrido em um estábulo de uma cidadezinha em meio a uma noite escura, fria e silenciosa. Entretanto, é exatamente aí neste contexto que surge Àquele que mudou os rumos da história humana e que também pode mudar os rumos da vida e história de cada pessoa.

A pandemia da COVID-19 agravou crises já existentes na sociedade e expôs nossos dramas; aumentou o consumo de drogas lícitas e ilícitas, de pornografia, os índices de desemprego, fome, divórcios, violência doméstica, principalmente contra a mulher, óbitos, etc. Vacinas surgem e alguns países já começam a aplica-las. Contudo, é angustiante vermos esta luz no fim do túnel e concomitantemente acompanharmos o colapso do sistema de saúde com o aumento de contaminações e consequente crescimento do número de mortes. E mesmo depois da realização dos programas de vacinação, que hão de se estender por todo o ano vindouro, ficarão as sequelas, as marcas de um tempo de tantas tribulações. Neste sentido, a vacina não nos basta. Diga-se mais: nada nesta vida nos basta. Muito pelo contrário, as alegrias desta vida são fugazes. Lembro-me da grandessíssima promessa da Virgem de Lourdes à vidente Santa Bernadete Soubirous: “Não te prometo a felicidade nesta vida, mas na outra”. É aí que recorremos à fé em Jesus. Somente ele nos basta! Ele é a nossa felicidade que não passa! Ele é a nossa alegria! Se a vida e as pessoas nos afanam e nos decepcionam, Jesus nada nos subtrai, mas tudo nos providencia. N’Ele não há decepção nem frustração, mas somente certezas definitivas. E é exatamente isto o que a Natividade de Cristo proclama ao mundo de forma tão simples e singela e, por isso mesmo, desconcertante e ainda para muitos incompreensível.

O Natal é festa eminente e essencialmente religiosa. Não é o natal de qualquer pessoa. Mas o Natal do Redentor, Senhor da Vida, d’Aquele que é o portador da salvação de todo o gênero humano e que por isso mesmo se fez Deus conosco, ou seja, Deus próximo e amigo do ser humano. Ele nos acompanha solícito em todas as nossas dificuldades, principalmente nas mais dramáticas.

A despeito das mídias propagandearem o contrário, o verdadeiro sentido do Natal transcende os nossos horizontes meramente humanos e limitados. É muito raso medir a alegria do Natal a partir da mesura dos banquetes, da qualidade dos presentes, das confraternizações com amigos e familiares. Ainda que se esteja humanamente sozinho na noite de Natal, há que se celebrar com Jesus. Pois se o temos conosco, temos tudo. Ele é o nosso tudo!

O Natal do Senhor traz consigo outra dimensão que não pode ser desprezada: a justiça social. A pobreza é uma marca indelével da Natividade de Jesus. Um estábulo serviu de moradia para o Menino Deus, reclinado em uma manjedoura de feno, recipiente usado para se colocar a comida dos animais. E esta pobreza profética é sustentada pela pregação da Igreja, que também lança um olhar atento e caridoso para a grande quantidade de pessoas que carecem de moradia e vivem nas ruas de nossa cidade sem as mínimas condições de materiais e de dignidade, situação que muito se agravou nos últimos anos na cidade que quer ser maravilhosa.

A contemplação do presépio não pode nos alhear da realidade social na qual estamos inseridos, antes deve nos levar a uma ação concreta motivada não somente pela caridade, mas igualmente pelo senso de justiça a fim atenuar esta situação absurda numa das cidades mais ricas do país que, porém, segue ainda como uma das mais desiguais.

Já há algum tempo em que esta sociedade pós-moderna, consumista e hedonista tem procurado descolar as festividades natalinas do seu sentido genuinamente religioso e dos valores cristãos que lhes são subjacentes, inclusive com verdadeira negação do presépio, que hoje, mais do que em outros tempos, é retumbante proclamação da importância de mudanças estruturais exigidas pelo mínimo senso de justiça social. É um grito profético, clamoroso e ao mesmo tempo esperançoso de que todos tenham melhor participação nos bens criados pelo Pai para toda a família humana. As nossas ações concretas, movidas pela caridade cristã, que devotamos aos pobres nesta época do ano, nunca serão suficientes para fazer-lhes justiça. Pois são ações pontuais e momentâneas que lhes atenuam o sofrimento naquele instante, mas que não lhes conferem aquilo que lhes é de direito humano.

Se a prática da caridade é um imperativo, mais ainda é o respeito aos direitos dos pobres. O presépio é símbolo de que Jesus aceita os presentes que lhes são oferecidos, mas não fecha os olhos para as injustiças de que são objeto aqueles para os quais Ele foi enviado. E nós cristãos temos a obrigação de fazer ecoar os valores proclamados pelo presépio. Negar o presépio é não somente negar a fé cristã, o que já seria demasiadamente grave, mas é também negar os valores da família e a situação de miséria em que muitas famílias ainda hoje vivem, de tal sorte que o presépio é reflexo de uma realidade para a qual a sociedade de mercado e consumo dá as costas e não estende as mãos.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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