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Jesus Ressuscitado, protótipo de ser humano

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A história do Ressuscitado é construída na nossa história humana. Mas só podemos reconhecê-Lo e encontrá-Lo hoje a partir de sua manifestação no ontem da história. Tal manifestação é balizada no testemunho do Novo Testamento. Somente desta maneira fica conservada a sua seriedade para a história do mundo. Assim, há que se recusar qualquer tentativa de diminuir, ou até mesmo dispensar a fé no mistério da intervenção poderosa de Deus neste nosso mundo, ao pretender desta maneira manter a sobriedade da razão e ao mesmo tempo a fidelidade à mensagem bíblica. Uma atitude desta espécie não seria honesta nem coerente. Pois não é possível manter-se fiel à fé cristã quando a religião é subordinada aos limites da simples razão; é necessário escolher. Todavia, para os que crêem torna-se cada vez mais claro que a profissão de fé no amor que se revelou na história como superação e vitória sobre a morte em nada contradiz a razão.

São Marcos, Evangelista, apresenta-nos o questionamento dos discípulos a respeito da ressurreição dos mortos, segundo as palavras de Jesus logo após o evento da Transfiguração do Senhor. Não compreendiam o que significava “ressuscitar dos mortos” (cf. Mc 9, 9-10); somente a realidade lhes permitiria apreender tão profundo mistério. As narrações neotestamentárias, a despeito de não deixar qualquer dúvida de que a ressurreição de Jesus havia sido algo inaudito em toda a história, podem permitir interpretações equivocadas para aqueles que a elas acorrem objetivando compreender o que é a “ressurreição do Filho do homem”. Há o risco de compreender a ressurreição de Jesus como o milagre de um cadáver reanimado, o que para nós seria irrelevante e a colocaria no mesmo nível da ressurreição do jovem filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11-17), da filha de Jairo (cf. Mc 5, 22-24. 35-43 e paralelos) ou de Lázaro (cf. Jo 11, 1-44), eventos miraculosos de reanimação de cadáveres, mas que no entanto, não evitou que após algum tempo eles morressem definitivamente (Ratzinger, J. Jesus de Nazaré, 219).

Como já aludido acima, as narrações neotestamentárias testemunham sem sombra de dúvidas que a ressurreição de Jesus foi algo completamente diferente. A ressurreição transfere Jesus para outra dimensão de vida totalmente diversa, nova, liberta das leis da física (cf. Jo 20,19. 26) e da morte; mais ainda: vida que inaugura uma nova dimensão do ser homem.

A ressurreição de Jesus não é apenas um evento ímpar da história reservado ao passado, mas, na linguagem de Ratzinger é um salto qualitativo, uma nova possibilidade de ser homem que toca toda a humanidade e que abre um novo gênero de futuro para a existência humana (Ibid., 219-220). De modo que se por um lado a ressurreição de Jesus é um evento ímpar, por outro é também um evento universal.

Assim, em Jesus de Nazaré, Ratzinger nos recorda que não é sem motivos que São Paulo associa de modo inseparável a ressurreição dos cristãos da ressurreição de Jesus, de modo que Ele é chamado de primícias dos mortos: “Se os mortos não ressuscitam, então Cristo também não ressuscitou. (…) Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15,16. 20). É uma linguagem um tanto rural, pois primícias são os primeiros frutos da colheita, aqueles que dão uma prévia da qualidade de toda a colheita, e em geral as primícias eram oferecidas a Deus em ação de graças. Sendo o Ressuscitado primícias dos que morreram, nele temos uma prévia do que ocorrerá com o ser humano no fim dos tempos. Somente tal entendimento é capaz de possibilitar uma justa compreensão do testemunho neotestamentário sobre a ressurreição.

A ressurreição dos mortos já era conhecida pela tradição judaica como evento próprio do fim dos tempos, lembremos que os fariseus, considerados progressistas quanto às crenças religiosas, criam na ressurreição. Mas s ideia de vida nova estava associada à ideia de mundo novo. Sendo assim, a ressurreição como vida nova, diversa e definitiva em meio ao mundo velho constituía ambiguidade para a compreensão dos discípulos, algo paradoxal que supera todo entendimento e experiência, mas que está presente de modo absolutamente real e incontestável. Eles podiam ver Jesus ressuscitado, podiam dialogar com Ele, tocá-Lo, comer com Ele. Não se tratava de um corpo reanimado nem de um fantasma. Embora já não pertencesse ao mundo físico nele estava presente de modo real e em Sua plena identidade. Malgrado a hesitação e maravilha iniciais já não podiam mais duvidar ou ao menos ser lentos em crer, assim, deixaram-se seduzir pela realidade (Ibid 220-221).

Mas e quanto a nós, homens modernos imersos em um contexto sócio-cultural fortemente marcado pelo secularismo e pelo relativismo, podemos acreditar nos testemunhos neotestamentários? Esta é a pergunta central para os nossos dias e que, não sem motivos, esteve presente ao longo de todo o pontificado do Papa Emérito Bento XVI. Ele mesmo nos recorda que segundo o pensamento iluminista a resposta é radical: não. Haja vista que na dinâmica do progresso do conhecimento científico as ideias tradicionais sobre a ressurreição de Jesus devem ser consideradas ultrapassadas. Contudo, antes mesmo de pensarmos em responder ao referido questionamento, correndo o risco de nos deixar subjugar pela tirania do cientificismo e fatalmente a reduzir os testemunhos neotestamentários e a própria ressurreição de Jesus a puro mito, há que se responder outra questão: até onde podem alcançar os limites da ciência? Constitui realmente a ciência as balizas do conhecimento em toda plenitude deste termo? Absolutamente!

Ora, é evidente que não pode haver contradições com aquilo que constitui um claro dado científico. Entretanto, os testemunhos neotestamentários sobre a ressurreição falam-nos de algo que não ocorre em nosso mundo, ou seja, dentro das limitações de nossas categorias. Trata-se de algo inteiramente novo, único; trata-se de uma nova dimensão da realidade que a nós se manifesta e nos é aberta. A fé na ressurreição não contradiz a realidade empírica, mas a supera. Sua dimensão é ulterior ao entendimento humano, por isso é considerada não na nossa categoria científica ou histórica, mas na categoria de mistério.

Do que afirmamos até aqui, podemos perceber que os diversos testemunhos da ressurreição nos atestam que o Ressuscitado não é um cadáver reanimado e nem um fantasma ou espírito desencarnado pertencente ao mundo dos mortos, mas que pode Se manifestar no mundo dos vivos. Os encontros com Ele não se situam no nível das experiências místicas, em que o espírito humano é momentaneamente elevado acima de si mesmo e toma contato com o mundo divino. Bento XVI nos recorda que a experiência mística, precisamente por ser superação momentânea do âmbito da alma e das suas faculdades de percepção não é um encontro com uma pessoa que externamente se aproxima de mim (Ibid. 244), em quem eu toco, com quem eu dialogo, com quem eu faço refeição. O Apóstolo, por exemplo, distingue com admirável clareza a diferença de suas experiências místicas do seu encontro pessoal com o Ressuscitado a caminho de Damasco, evento situado na história e por isso mesmo de grande significado histórico. Mas a experiência com o ressuscitado é diferente do encontro com um ser humano desta nossa história, de modo que ela não pode se limitar a conversas à mesa e a lembranças que logo teriam se transformado na ideia de que ele não morreu e que daria continuidade a sua missão. Tal interpretação nivelaria os acontecimentos numa perspectiva meramente humana, privando-os de seu conteúdo essencial (Ratizinger, J. Introdução ao Cristianismo, 228).

Embora a ressurreição seja histórica, ela supera a história. Bento XVI ao usar de uma linguagem analógica, reconhecidamente por ele mesmo como inapropriada, mas que auxilia a compreensão, considera a ressurreição como um tipo de salto qualitativo que abre acesso a uma nova dimensão da vida, do ser homem.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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