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Das trevas à luz

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A mais santa de todas as semanas que iniciamos no Domingo de Ramos nos convida a mergulharmos na sagrada tragédia desses dias, cujas trevas antecipam e preanunciam o brilho da gloriosa Ressurreição para a qual rumamos na liturgia e na vida. As sombras que nos envolvem nestes tempos de pandemia, que devasta a economia e ceifa vidas, é um apelo a mais a nossa fé e espiritualidade.

Estamos no momento mais grave da pandemia da covid-19. Contudo, o avanço da doença não pode ser tão forte a ponto de obscurecer a certeza de que Deus está conosco, e se Sua presença é revelada na memória litúrgica do sofrimento de Cristo para salvar a humanidade, também é revelada em meio às dores e às inúmeras perdas que esta pandemia nos impõe.

A celebração do Domingo da Paixão, as devoções relacionadas às dores de Nossa Senhora, as estações da Via Sacra, o Ofício de Trevas, o lamento de Verônica e o próprio Tríduo Pascal, tudo deve nos remeter ao amor apaixonado, ou seja, amor com sofrimento, crucificado de Jesus e nos incitar à unidade de nossos sofrimentos às d’Aquele que sendo Deus Eterno e Onipotente, fez-se Varão das Dores; naquela mesma dinâmica do ensinamento do Apóstolo: “O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24). Tais palavras devem soar para nós como um convite, mas também como um desafio a nossa fé, precisamente neste dado momento da história humana, que coincide com avassaladora secularização que a todos envolve e afeta a ponto de relativizar valores espirituais, sem, contudo, conseguir aniquilar, de todo, a presença de Deus no coração de nossa gente.

Com efeito, a Semana Santa é ocasião privilegiada para recordarmos e proclamarmos a este mundo tão carente de Deus, porque sem fé, ou pelo menos fé rasa, que a vida humana de Jesus é itinerário rumo ao Gólgota em Jerusalém, ou seja, é itinerário histórico que tende para a cruz, que também deve ser vista em estreita relação com a cruz do ser humano. Aí percebemos a solidariedade de Jesus com os sofrimentos humanos. Na cruz, Deus revela-se um Deus solidário ao drama humano. Mas tal solidariedade vai muito além do puro romantismo ou mero conforto sentimental; ela é eficaz no sentido de que Deus participa do sofrimento humano para vencê-lo a partir de dentro. De modo que somos levados a admitir que o Deus cristão não é um Deus apático ou impassível, mas um Deus que por amor a nós e por nossa salvação se faz um de nós em Jesus de Nazaré. E a historicidade de sua vida terrena deve ser vista na ótica da relação, primeiramente com o Pai, a quem Ele obedece, mas também em relação ao ser humano a quem revela o Pai e liberta pela paixão, morte e ressurreição.

Não se pode considerar o itinerário humano e, por isso mesmo, histórico de Jesus de maneira unilateral e desvinculado de sua morte redentora. Pois é precisamente nesta que nós percebemos a plena realização de sua vida como relação. Neste sentido, a vida humana de Jesus acaba por ser o ponto de partida para chegarmos à percepção de sua divindade no Mistério Pascal, que por sua vez é a máxima radicalização da entrega vivida por Jesus e libertação para o homem.

Por seu próprio poder, Ele abriu o sepulcro escavado na pedra por José de Arimatéia: “José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora” (Mt 27, 59-60). O Seu amor apaixonado o fez vencer a morte, porque o Espírito que desposou sua Mãe Santíssima e o ungiu no Jordão como Messias de Israel, O fez ressuscitar triunfante dentre os mortos. E assim foi destruída a condenação que pesava sobre nós desde nossos primeiros pais no Paraíso, revertendo a nossa condição decaída, divinizando-nos em Seu próprio corpo e abrindo-nos as portas do Reino Celestial.

Fazer memória litúrgica destes fatos e ainda recordá-los em nossas penitências e em tantos outros atos de piedade, faz-nos mergulhar na profundidade do mistério da Ressurreição. Após a celebração das dores do Senhor passamos à exultação de Sua glória que irradia de Sua vitória sobre as trevas e brilha no Seu corpo Ressurrecto.

Entretanto, o que celebramos não é apenas alegria fugaz pela vitória restrita ao Domingo da Ressurreição. A realidade do sepulcro aberto e vazio é garantia da superação do mal que marca e acompanha nossas vidas desde os dias de Adão. A força do Ressuscitado que abriu o sepulcro e O fez sair glorioso – e que se escondia por trás das dores da Paixão – é a mesma força que nos salva e nos faz superar tudo o que nos oprime e aparece para nós como sinal de morte.

De igual modo, o Tríduo Pascal não se reduz apenas à celebração de um fato histórico que ficou no passado. Mas é atual, de maneira que atua pujantemente na vida de cada cristão que experimenta a amargura das dores e perdas impostas pelo tempo presente, reconfortando-o e fazendo-o atravessar este duro momento com serenidade e olhar para o futuro com o coração cheio de esperança cristã. Pois, com Cristo ele também será vitorioso.

Serenidade e alegria no Senhor devem marcar nosso cotidiano, resultado da frutuosa participação nas celebrações litúrgicas deste tempo forte. E aqui no Rio, ao contrário de tantas outras cidades do Brasil, com a graça de Deus e a sensibilidade de nossas autoridades públicas, que reconhecem as atividades religiosas como essenciais, poderemos celebrar a Semana Santa e a Páscoa com as portas abertas de nossas igrejas, ao contrário do que tristemente ocorreu no ano passado.

Em dias marcados por tantas mortes causadas pela covid-19, além de outras tantas ocorrências trágicas destes tempos difíceis, como não considerar Deus como essencial? Ele é essencial no coração e na vida de cada ser humano que sente o peso da cruz e ânsia pelo poder da Ressurreição atuante na sua vida cotidiana, expressa como superação, serenidade, esperança, alegria e paz, que não vêm do mundo, mas da força do Ressuscitado.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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