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Cristologia da Cruz e Cristologia Política

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A cristologia da cruz possui uma perspectiva que aponta para a cristologia da ressurreição. Este tema é melhor desenvolvido na obra do teólogo protestante Moltmann O Deus Crucificado, onde ele elabora uma interpretação cristológica da cruz de Jesus. Precisamente por ter uma perspectiva complementar, a referida obra não abandona as linhas fundamentais da sua Teologia da Esperança. Antes leva o próprio evento da ressurreição nos reportar à crucificação, visto que esta é causa eficiente daquela, ou seja, a cruz encontra na ressurreição o seu próprio fim.

Apesar da estreita ligação que há entre Teologia da Esperança e O Deus Crucificado, ambas de Moltmann, esta segunda obra traz algumas reformulações, progressos e retificações de explicações da obra anterior. Sobretudo no que diz respeito à maior atenção que o autor dá à história concreta de Jesus, e consequentemente a sua humanidade, isto é, a sua atividade pública, ao seu comportamento, a sua mensagem, a sua reivindicação de autoridade e principalmente ao seu relacionamento com Deus, particularmente importante porque o que conhecemos deste mesmo relacionamento com a divindade, nós o conhecemos a partir de sua humanidade.

Tal reflexão sobre o Jesus terreno torna-se mister precisamente por causa do seu fim na cruz, para onde converge toda a história de vida do Senhor. Assim, o itinerário histórico de Jesus deve ser visto como a sua caminhada para cruz, já que a sua morte é a consequência de todo o seu agir. Contudo, a problemática não deve ser posta de modo regressivo, ou seja, retornando aos dados biográficos deste itinerário de Jesus, ao contrário, todos os dados históricos devem ser considerados e avaliados teologicamente. Com efeito, este mesmo itinerário histórico de Jesus para a cruz é marcado por duas atitudes fundamentais e características, que na mesma cruz aparecem com um significado ímpar e a fundamentam cristologica e teologicamente.

  1. A relação de Jesus com a lei do Antigo Testamento: Jesus opõe a justiça pela fé à justiça pelas obras da lei, e o evangelho e a promessa à lei. Assim, acaba por ser considerado um blasfemo pelos judeus. A cruz leva essa tensão ao seu ponto mais alto e o leva ao mesmo tempo a uma decisão. Pois se o movimento de Jesus tivesse acabado com a morte na cruz, a lei teria levado vitória sobre o Deus da promessa. Assim, aqui tem-se a percepção de que a pregação de Jesus não pode ser desvinculada de sua pessoa, visto que em Jesus pessoa e causa são idênticas. Jesus, acusado de blasfêmia morre em decorrência da sua causa, do seu movimento pelo direito de Deus no processo entre lei e a promessa.
  2. A relação de Jesus com o poder político: se por um lado Jesus se afasta dos revolucionários de sua época, como por exemplo os zelotes, por outro, a sua crucificação é sem dúvida a pena pela sua revolta política. A forte influência política na história de Jesus encontra suas raízes no seu próprio engajamento pela justiça de Deus neste mundo, ou seja, a superação de todo legalismo, a recusa do pensamento que opõe amigos e inimigos, a rejeição de todo poder profano sobre a soberania exclusiva de Deus.

 

Em tudo isso Jesus questiona os fundamentos religiosos e políticos tanto do poder israelita como do poder romano, e como consequência última de seus atos, morre na cruz como rebelde político, por se autodeclarar rei dos judeus e por isso inimigo de César.

Aqui podemos perceber uma forte dimensão política que decorre da fé cristã. Pois se Jesus morreu na cruz por motivos também políticos, a confissão de fé em Cristo e a própria cristologia adquirem uma dimensão pública e social. Neste sentido, uma teologia da libertação tem seu fundamento no engajamento radical de Jesus em favor da soberania de Deus, a única legítima; e se ela é a única legítima, todas as outras que se impõem pela força e opressão são ilícitas. Assim, a atenção especial pelo direito das vítimas, como diria Sobrino, acaba por ocupar o núcleo da questão, assim como a preocupação em lutar contra toda justificação religiosa da soberania política e dos estados sociais reinantes. Com efeito, é na história e particularmente na história cristã que a cristologia da cruz deve ser entendida politicamente, visto que é sempre na história que o cristão deve combater as forças tiranas deste mundo sob o signo da cruz em que Jesus foi pregado como subversivo.

Com efeito, é a partir desta lógica que podemos falar de uma cristologia política em Moltmann, que por sua vez está em profunda unidade com a sua cristologia escatológica. Pois, ao passo que a cristologia escatológica procura fundamentar a esperança universal na história em virtude da promessa, a cristologia política procura formular em concreto a transformação exigida do mundo em função da vinda de Deus. Assim, Moltmann explora os elementos presentes na compreensão teológica da cruz.

Para o autor, a soberania do Cristo crucificado por motivações políticas possui como uma de suas chaves de leitura a libertação em relação às formas de poder, que oprimem e controlam os homens tornando-os apáticos, e a evacuação das religiões políticas que sustentam as referidas formas de poder. A consumação do Reino deve, neste sentido, segundo o Apóstolo Paulo, destruir todo poder tirano e suprimir as apatias e as alienações que lhes são equivalentes. Assim, os cristãos hão de procurar antecipar o futuro de Cristo na medida em que lhe for possível, de modo que toda dominação seja destruída e de par em par seja construída a vida política de cada um.

Com efeito, o retorno à cruz livra a atividade histórica do cristão do vazio e da falta de plano e objetivo, pois a prática política da fé adquire agora um direcionamento claro e distinto: a promessa escatológica.

Por fim, cabe aqui apontar um último elemento da história de Jesus, isto é, a sua relação especial com Deus, a quem chama de Pai; relação que adquire na cruz a sua expressão mais elevada e plena. Há uma identificação total da pessoa de Jesus com a sua causa. Pois bem, esta união indissolúvel da causa própria de Deus com Jesus e a sua pregação, permite-nos compreender o seu sofrimento interior, um sofrimento essencialmente humano, bem como a índole peculiar e o significado teológico de sua morte: “Jesus não vivia como uma pessoa privada, algo que só foi feito dele na apresentação histórica liberal do século XIX, mas, até onde sabemos pelas fontes, ele vivia como uma pessoa pública sustentada pela proximidade de seu Deus e Pai  para o Reino vindouro deste” (MOLTMANN, J. O Deus crucificado., p.192).

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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