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Bíblia e Liturgia

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Nos últimos decênios temos testemunhado um grande esforço por parte do magistério a fim de que toda a comunidade cristã volte ao texto sagrado como fonte de espiritualidade e vitalidade para a própria igreja. Este esforço se deve em parte ao impulso dado pelo movimento bíblico, verdadeiro dom do Espírito Santo no seio da Igreja que influenciou a publicação das encíclicas Providentíssimus Deus (18 de novembro de 1893) de Leão XIII, Spiritus Paraclitus (15 de setembro de 1920) de Bento XV, Divino Afflante Spiritu (30 de setembro de 1943) de Pio XII chegando até às constituições Sacrosanctum Concilium e Dei Verbum do Concílio Vaticano II e ainda mais recentemente ao Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, que ocasionou a exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini (2010). Todos estes documentos anteriores ao concílio, conciliares e pós-conciliares falam de revelação divina, de Sagrada Escritura, de celebração da Palavra, etc. Pois concebem a Palavra de Deus no centro da vida da Igreja, que por sua vez a interpreta (Dei Verbum 10, 12) e a celebra, proclamando-a na ação sagrada por excelência, isto é, na celebração litúrgica. 

Ao encontro do movimento bíblico vieram também os movimentos litúrgico e patrístico, outros verdadeiros dons do final do século XIX e início do século XX, dos quais os demais movimentos catequético, pastoral e ecumênico, tiraram grande proveito. Sendo que os três primeiros mais uniram esforços no sentido de aprofundar a relação entre bíblia e liturgia.

Estes movimentos surgidos a partir do final do século XIX, mediante o retorno às fontes, renovaram a cultura religiosa contemporânea ratificando a Bíblia como um livro de manifestação viva e vivificante da Revelação divina, que só pode ser compreendido como autêntica Palavra de Deus no contexto eclesiástico, onde se faz guia, norma e regra para a vida da Igreja e o crescimento espiritual dos fiéis, conforme afirmou o Papa Bento XVI em 23 de abril de 2009 a 30 representantes da Pontifícia Comissão Bíblica que tinham celebrado sua assembleia plenária na Cidade Eterna.

A Igreja exprime seu modo de pensar a Bíblia, inclusive exegeticamente, tanto em sua doutrina como em sua oração. A doutrina é transmitida principalmente através dos escritos dos Santos Padres e sua oração é expressa na liturgia. O que não quer dizer que a Igreja se assente sobre uma interpretação passada, negando-se a interpretar em seu magistério toda conquista autêntica do pensamento humano e da ciência, estes, na verdade, não podem modificar a concepção tradicional da Bíblia, que já pertence ao patrimônio da fé. Todavia, antes devem aprofundá-la e prolongá-la.

Há que se destacar ainda questão da tipologia, ou seja, o simbolismo profético ao qual os Santos Padres e a Liturgia indicam de modo inequívoco como o fundamento sobre o qual se apoia a leitura cristã da Bíblia, interpretando o Antigo Testamento à luz do Novo e fixando ao mesmo tempo aí de modo autêntico seus limites. Na verdade os Santos Padres e a Liturgia são justamente as testemunhas autênticas da Tradição e as fontes concretas a partir das quais devemos chegar ao sentido tipológico, que adquire sua expressão mais significativa na celebração litúrgica, onde por sua vez a Palavra de Deus manifesta a sua mais alta eminência como presença de Cristo no meio de nós para alimento espiritual de nossa fé. 

Se a palavra de Deus é viva e eficaz (cf. Hb 4,12), a liturgia, precisamente por ser a Sagrada Escritura celebrada, também é palavra viva que interpela o crente e exige dele, com o passar do tempo, uma resposta individual e eclesial à intervenção de Deus contida na sua Palavra. Desta maneira, a celebração litúrgica exerce plenamente seu papel de servidora, criando o modo de transmitir, de anunciar e de realizar vitalmente a Palavra de Deus concomitantemente ajudando o crente a formular a tal resposta existencial ao próprio Deus que o interpela.

A leitura litúrgica da Sagrada Escritura é leitura que esgota todo o sentido que ela tem aos olhos do seu autor principal. De maneira que a completude, a vitalidade, a atualidade e o dinamismo do sentido profundo da Escritura se realizam na liturgia, porque tal sentido profundo na sua completude, vitalidade, etc, não é outra coisa senão a unidade da economia salvífica que deve realizar-se na celebração litúrgica.

Portanto, a celebração litúrgica da Palavra de Deus está naturalmente orientada a revelar a atualidade do mistério celebrado e a fazer os participantes penetrarem na sua compreensão. Os cristãos que participam de uma celebração da Palavra sentem-se desejosos de participar da celebração eucarística, realização máxima de toda Palavra proclamada.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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