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As Características Centrais da Missão

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No ensejo do mês extraordinário das missões, é sempre bom e útil recordar as características centrais da missão. Porém, antes de tudo, é preciso recordar o sentido da missão na vida da Igreja como continuidade da missão do Cristo e do Espírito Santo. Pois, ao vencer a morte ressuscitando ao terceiro dia pela Glória do Pai, Jesus imediatamente sopra o Espírito Santo sobre os seus discípulos, enviando-os à missão, naquele evento que será conhecido como o Pentecostes Joaneu (Jo 20,21). É, portanto, dever da Igreja, enriquecida dos dons hierárquicos e carismas do Espírito, anunciar o Reino de Cristo e estabelecê-lo em todos os povos e nações, sendo aqui na terra o próprio germe e início do Reino que ela mesma anuncia. Assim, a missão é característica essencial da Igreja, que quer converter o mundo a Cristo, em obediência ao seu divino mandamento, quando após a ressurreição, apareceu aos discípulos e disse: “Ide por todo o mundo e fazei discípulos meus todos os povos batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei” (Mt 28,19-20). Mais que um mandamento do Ressuscitado, este é um programa de vida para todo discípulo. 

Anunciar o Evangelho aos homens de nosso tempo trata-se de um serviço prestado a toda a humanidade. E este santo serviço parte da própria essência da vocação cristã inerente ao batismo que recebemos, através do qual recebemos o Espírito Santo para sermos discípulos-missionários de Cristo.

A missão evangelizadora é tarefa de capital importância na fé e na atividade da Igreja, haja vista que a apresentação da mensagem cristã não é para a mesma uma contribuição facultativa, mas é um dever que lhe incumbe por mandato do próprio Cristo Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos. A mensagem evangélica é necessária e única, não podendo ser substituída. Assim, ela não admite indiferença, nem sincretismo, nem acomodação. É a salvação dos homens que está em questão. É a beleza da Revelação que ela representa. Além disso, ela comporta uma sabedoria que não é deste mundo. Ela é capaz, por si mesma, de suscitar a fé, uma fé que se apoia na potência de Deus. Enfim, ela é a Verdade. Por isso mesmo, ou seja, por essa capital importância que a missão evangelizadora possui na fé e na atividade da Igreja, que ao longo da história do cristianismo tantos homens e mulheres, jovens e crianças, empenharam todo o seu tempo, todas as suas energias e até a própria vida no anúncio do Reino de Cristo.  

O próprio Jesus declara ser sua missão ir de cidade em cidade a proclamar a boa nova do Reino de Deus (Lc 4, 43), sobretudo aos mais pobres, que muitas vezes são os mais bem dispostos para acolher o alegre anúncio da realização das promessas e da aliança feitas por Deus, tal é a missão para a qual Jesus declara ter sido enviado pelo Pai. E todos os aspectos do seu mistério, a começar da própria encarnação, passando pelos milagres, pela doutrina, pela convocação dos discípulos, escolha e envio dos doze, pela cruz até a ressurreição e à permanência da sua presença no meio dos seus, fazem parte da sua atividade evangelizadora.

Jesus é o próprio “Evangelho de Deus”. Ele é a Boa Notícia de Deus aos homens. Ao mesmo tempo em que é anunciador, é anunciado, visto ser Ele mesmo também o conteúdo essencial do anúncio. Seus discípulos não anunciam uma ideia, uma corrente de pensamento, uma ideologia ou um estilo de vida, mas o próprio Jesus Ressuscitado, que deve ser acolhido pelo coração dos homens e mulheres de boa vontade, a fim de entrarem em comunhão com o amor misericordioso do Pai. Mas, a presença de Jesus é veiculada pela própria presença do Reino de Deus, que constitui o núcleo central da pregação do Senhor e de todos os sinais que realizou, chamados sinais do Reino de Deus. Reino diante do qual tudo é relativizado. Pois, é ele que deve sempre ser buscado em primeiro lugar. Diante dele, tudo o mais passa a ser “o resto”, ou seja, que é “dado por acréscimo”. Só o Reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele. E este Reino significa a própria realização da salvação divina. 

Neste sentido, sendo o núcleo do Evangelho de Cristo o anúncio do Reino ou da salvação divina, esta, por sua vez, significa o grande dom de Deus que é libertação de tudo aquilo que oprime o homem; libertação, sobretudo, do pecado e do maligno, na alegria de conhecer a Deus e de ser por Ele conhecido, de vê-Lo e de entregar-se a Ele. 

Por fim, a Igreja entende que a sua missão de evangelizar não prescinde, evidentemente, do testemunho que ela mesma deve dar de maneira simples e direta do Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Dar testemunho do Deus que no seu Filho amou o mundo, deu o ser a todas as coisas que existem e chamou os homens para a vida eterna. Assim, a missão de evangelizar não seria propriamente completa se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens. É por isso que a evangelização comporta uma mensagem explícita, adaptada às diversas situações e continuamente atualizada sobre os direitos e deveres de toda a pessoa humana e sobre a vida familiar – sem a qual o desabrochamento pessoal quase não é possível –, sobre a vida em comum na sociedade; sobre a vida internacional, a paz, a justiça e o desenvolvimento; uma mensagem sobremaneira vigorosa nos nossos dias, ainda sobre a libertação. Uma libertação que a evangelização anuncia e se esforça por atuar sim, mas que não pode ser limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural; ao contrário deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, e o absoluto mesmo de Deus. Ela anda, portanto, coligada a uma determinada concepção do homem, a uma antropologia que ela jamais pode sacrificar às exigências de uma estratégia qualquer, ou de uma “práxis” ou, ainda, de uma eficácia a curto prazo.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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