Gaudete et Exsultate do Papa Francisco

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“Gaudete et Exsultate” – Sobre o chamado à santidade no mundo atual

Um Exame de Consciência

A exortação apostólica do Papa Francisco nos faz refletir sobre a essência da nossa vocação Cristã, de sermos Filhos de Deus. O Santo Padre nos chama primeiramente a um exame de consciência sobre a nossa correspondência a Deus no nosso agora. Logo no primeiro ponto do documento o Papa nos exorta:

“O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa.”

Essa é a primeira reflexão que precisamos fazer sobre a nossa vida cristã, se realmente estamos crescendo na amizade com Deus, ou estamos acomodados em nosso conforto, cumprindo só o que a regra nos pede. A vida Cristã é uma caminhada crescente, onde uma hora caminhamos mais rápido, em outros momentos mais lentos, mas o importante é que não paremos de caminhar e dar passos de crescimento e amadurecimento de nossa Fé. Por isso, o Santo Padre nos chama a reflexão se não estamos sendo um desses maus cristãos (medíocre, superficial e indecisos).

Chamado à Santidade

O chamado à Santidade não é uma novidade pregada por Jesus no Evangelho, mas é um chamado de Deus desde os primórdios dos tempos. Por isso, o livro do Gênesis no primeiro capítulo trás no relato da criação do homem aquilo que é a essência para qual o homem foi criado, pois ele foi criado à “Imagem e Semelhança”, aí já está implícito o chamado à Santidade, nós fomos criados para ser santos como Deus é Santo.

No perpassar dos tempos vemos que Deus faz esse chamado ao homem, o lembrando a sua essência, e no livro do Levítico contemplamos a exortação do Criador à sua criatura: “Sede pois santos, porque eu sou Santo.” Esse chamado é uma consagração, como expressa o profeta Jeremias: “antes de formar-te no seio de sua mãe, eu já te conhecia; antes de saíres do ventre, eu te consagrei.”

Fomos criados para a Santidade, para participar da divindade do próprio Deus, por isso Jesus Cristo vai nos exortar: “Sede perfeitos como o vosso Pai do Céu é perfeito.” Jesus seria incapaz de nos pedir para ser o que nós não somos, por isso Ele nos chama à perfeição, pois foi para isso que cada um de nós foi criado. É bem claro e notório que pelas nossas próprias forças nós não conseguimos tal perfeição, e é por isso que precisamos entender esse chamado, pois assim como Adão e Eva foram criados à imagem e semelhança para estarem unidos a Deus no paraíso, assim também nós que herdamos essa vocação dos primeiros pais, só alcançaremos a perfeição pedida por Cristo, se estivermos unidos a Ele, pois é Ele que completa a nossa incompletude, é Ele que aperfeiçoa a nossa imperfeição. Com isso entende-se que o chamado à Santidade é nada mais nada menos do que Seguir e Permanecer com Ele.

Inimigos Sutis

O Santo Padre nos exorta sobre dois inimigos sutis da Santidade, e nos faz refletir sobre aquilo que em nós começou como virtude e no meio do caminho pode ter se tornado um vício de orgulho e vaidade.

O primeiro inimigo é o Gnosticismo atual, e o Santo Padre diz:

“O gnosticismo supõe uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam.”

Esse gnosticismo se expressa na atualidade por aqueles que buscam conhecer muito sobre as coisas de Deus, mas possuem uma fé desencarnada, sabem muito para exortar os outros, mas não aprenderam a colocar em prática em sua vida aquilo que tanto sabem. Esse é um mal grande, pois essas pessoas acabam uma hora ou outra vivendo de seus próprios achismos. Pessoas que chegam agora e por terem estudado um pouquinho mais, começam a dizer que a Igreja está errada.

O segundo inimigo sutil é o Pelagianismo atual. O pelagianismo diferente do gnosticismo, que coloca na razão a capacidade de salvação, coloca toda a sua “esperança” ou presunção na sua própria vontade, achando que pelo próprio esforço conseguirá alcançar a salvação. Infelizmente temos muitos cristãos assim, pessoas que pensam que pelo seu trabalho, sua pastoral, seu esforço, conseguirão alcançar a sua salvação e das almas. O Santo Padre diz que esses possuem uma “Vontade sem Humildade”.

Portanto, é necessário refletir sobre a nossa vida, sobre o nosso serviço a Deus e principalmente sobre a nossa forma de viver a Fé. Pois, a condição para o crescimento é o rebaixamento: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. A virtude da Humildade é o que conserva a virtude em nós, por isso que o conhecimento sem humildade, se torna um intelectualismo vazio, e o esforço se humildade se torna presunção. O Santo Padre nos chama atenção, para que não caiamos nesse erro, de uma vaidade e orgulho intelectual (achando-se donos da verdade) e de um ativismo sem espiritualidade (achando-se capazes pelas próprias forças). Por isso, precisamos reconhecer: “quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: Somos simples servos; fizemos o que deveríamos fazer”. Não somos nós que fazemos, é Deus que realiza todas coisas em todos: “Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”. Busquemos a virtude da Humildade, para reconhecer que não é pela nossa capacidade racional ou pelo nosso esforço, mas é pela graça divina que somos conduzidos ao mais alto grau da contemplação do mistério e à perseverança no caminho de Santidade.

Virtudes do Bom Cristão

O documento traz alguns indicativos para podermos ser bons cristãos, virtudes de Cristo que precisam ser buscadas pelos discípulos. O Santo Padre nos dá cinco vias para a perseverança no seguimento de Cristo:

Tolerância, Paciência e Mansidão

A tolerância, paciência e mansidão são virtudes que estão interligadas, elas se completam, a tolerância nos faz entender que não somos nós que convertemos as pessoas, é Deus que converte, e por isso, que ela vem acompanhada da paciência e da mansidão, pois a pessoa Tolerante não fica tentando mudar os outros, mas busca mudar o seu interior, pois sabe que a conversão do outro depende de um testemunho vivo e convicto de uma experiência real e constante com Deus. O intolerante geralmente quer que o outro seja aquilo que nem mesmo ele é.

Alegria e Sentido de Humor

A alegria é o cartão de visitas do Cristão, pois se um Cristão é triste, ninguém vai querer segui-lo, pois perceberá que ele não segue a Cristo. A alegria é um fruto do Espírito, um sinal da presença de Deus, por isso, precisamos ter um olhar mais Otimista sobre a vida, sobre nossa realidade e sobre o caminho que Deus está nos propondo a seguir, e aprender como São Paulo a dizer em todos os momentos de nossa vida: “Em tudo dai Graças”.

Ousadia e Ardor

A ousadia e o ardor são duas coisas que precisamos conservar a cada dia, pois as frustrações e os desânimos podem nos abater, e nos impedir de ser dóceis à força do Espírito Santo. Quando perdemos a coragem de falar de Deus, é sinal que não estamos amadurecendo a nossa Fé, pois a ousadia e o ardor se acabam quando vamos perdendo a convicção no que Cremos, por isso é necessário a cada dia renovar a entrega de nossa vida a Deus, e sermos obedientes a nossas superiores que são a voz de Deus, que nos chama e nos enviam a anunciar a Boa Nova. Nossa ousadia e ardor são conservados em nosso coração, na medida em que reconhecemos que é Deus que realiza a obra em nós.

Vida Comunitária

A vida comunitária é essencial para um crescimento na santidade. É na comunidade eclesial que percebemos as nossas virtudes, mas também percebemos os nossos vícios, e temos a oportunidade de nos purificar pelos sacramentos. A vida comunitária nos faz crescer, pois nela somos alimentados com o pão Eucarístico e da Palavra, e também pelo pão do testemunho do nosso irmão. Vemos esse grande testemunho na Vida da Igreja, e assim vemos na vida dos Santos, que nenhum deles foram santos sozinhos. Por trás de um Santo há sempre um outro Santo.

A vida comunitária é o remédio contra o individualismo, o egoísmo e o indiferentismo. Por isso, ela se torna causa de santidade.

Vida de Oração

A vida de oração é o termômetro de uma alma. Os grandes santos vão dizer que o termômetro de uma alma está na generosidade do tempo dedicado a Deus, na meditação da Palavra, na visita ao Santíssimo, na frequência nos Sacramentos, no interesse pelas coisas eternas. Quer saber como uma alma está, é só perceber o quanto de tempo ela dedica a Deus. A Oração é a porta para uma intimidade e amizade divina, quanto mais nós praticamos, mais tudo em nós se torna um diálogo com Deus, uma correspondência àquele que nos chama.

Caminho de Santidade

Concluindo a nossa reflexão sobre a Santidade a partir da exortação Gaudete et Exsultate, vemos o Papa nos chamando à três coisas: a Luta contra o inimigo da salvação, a Vigilância diante das ocasiões de pecado e o Discernimento entre as coisas que podem ou não nos levar a Salvação. Com isso, percebemos que a via da Santidade passa por três primeiros degraus: a Generosidade contra a mediocridade; o Aprofundamento no conhecimento da Fé contra o superficialismo; e a Firme e Convicta Decisão contra a indecisão de deixar ou não tudo para segui-lo.

Pe. Rafael Augusto Linhares Pinto

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