A vida eterna

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“A esperança não decepciona” (Rm 5,5)

 

1. A visão cristã da morte.

O mês de novembro, marcado pelo final do ano litúrgico, e também pelas celebrações de ‘Todos os Santos’ e da comemoração litúrgica de ‘Todos os fiéis defuntos’ coloca-nos com toda a Igreja diante do mistério da morte e da ressurreição. Coloca-nos diante da pergunta sobre qual é a nossa esperança?! É possível ter esperança?

Meditar sobre a morte é colocar-se diante do ‘enigma mais alto da condição humana’[1]. O Catecismo da Igreja ensina que a morte recorda-nos que a nossa vida é medida pelo tempo, dando-lhe um caráter de urgência[2], pois o tempo que temos é limitado e, conforme os desígnios de Deus, chegará ao termo a nossa vida terrestre. Assim, somos convidados a olhar para o mistério da morte a partir da fé. E esta, por sua vez, não nos aliena da realidade da perda, isentando-nos da dor, não! A fé não é um consolo.  Ela é muito mais do que isso, ela é um dom de Deus em nós, que nos faz enxergar tudo sobre outro prisma.  A fé dá sentido a tudo, e até mesmo à morte.  E é com esse olhar que precisamos ‘enxergar’ o mistério da morte. Ela não é o fim, ela é passagem para entrada na Vida que não terá mais fim.

Assim rezamos na liturgia: ‘Senhor, para os que crêem em vós a vida não é tirada, mas transformada. E desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível’[3].

Desde o momento em que o Filho de Deus se submeteu a essa dura lei da condição humana, o enigma da nossa morte não pode mais ser lido e explicado por um ‘olhar de baixo’, enquadrando-se na mortalidade geral dos viventes, mas é atraído e assimilado ‘em direção ao alto’ pela morte do Senhor. Se vivemos em Cristo, nos é dado também morrer em Cristo, fazendo a nossa morte participar da morte redentora de Cristo.

Enfim, a visão cristã da morte é uma visão de esperança, da vida que nasce da morte, a partir do mistério pascal de Jesus Cristo. Nele abre-se uma nova perspectiva, onde a morte já não é mais o fim de todas as coisas, ela é antes, uma porta, uma passagem para a vida plena em Deus. Cristo nos garante a vida para sempre. Ele mesmo disse: “Esta é a vontade de meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,40).

[1] GS 18.

[2] Cf. CIC 1007.

[3] MR, Prefácio dos defuntos.

2) Como os santos encaravam o mistério da morte?

Na história da Igreja vemos que a fé deu a muitos homens e mulheres uma visão privilegiada sobre a morte. Santo Inácio de Antioquia ao aproximar do martírio exclamava: ‘Meu nascimento aproxima-se. (…) Deixai-me receber a pura luz; quando tiver chegado lá serei verdadeiramente homem’. São Francisco de Assis a chamou ‘morte minha irmã’. Uma irmã, que com carinho nos tomará pela mão e nos levará ao Pai no Banquete eterno.

Santa Teresa d’Avila no Livro da Vida dizia: ‘Quero ver a Deus, e para isso é preciso morrer’. Santa Teresinha do Menino Jesus, no frescor da sua juventude e mesmo provada por longa enfermidade, já perto de morrer disse: ‘não morro entro na vida’.  São João da Cruz, num dos seus poemas, dizia: ‘morro porque não morro’.

Enfim, os santos porque viviam a vida a partir de Deus, também olhavam a morte como essa passagem, uma oportunidade para encontrar-se definitivamente com Ele.

3) A crise de esperança da cultura contemporânea e a definição de vida eterna de Bento XVI.

Por que o homem de hoje trata com indiferença e parece não crer na vida eterna? Será influência do materialismo, do imanentismo? Ainda tem sentido falar de vida eterna ao mundo de hoje? O fato de termos um futuro, diz Bento XVI é distintivo dos cristãos. Eis as palavras do Sumo Pontífice na sua encíclica sobre a esperança.: “Não que conheçam em detalhe o que os espera, mas sabem em termos gerais que a sua vida não acaba no vazio”, e é a certeza deste futuro, que torna vivível também o presente. (Spe Salvi, 2).

Diante de uma mentalidade que tem um ¨cansaço da vida¨, como dizer para o mundo moderno que Deus tem para nós uma vida eterna, e que esta é boa… “isso – diz o Santo Padre, no referido documento – parece mais uma condenação do que um dom”. Aparece aqui uma grande contradição na atitude da mentalidade hodierna: ao mesmo tempo que não queremos viver eternamente, temos tanta dificuldade com a morte, com a perda das pessoas que amamos. O que queremos na realidade?, pergunta o papa. Ele responde a essa questão analisando em que consiste o conceito de vida, e o que significa eternidade.

A palavra “vida eterna” procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. “Eterno” suscita em nós a ideia de interminável, e isto nos amedronta; “vida”, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente nos reserva mais canseiras que satisfações (…). A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. (SS, 10).

Buscando as raízes dessa crise de esperança que vivemos, nos deparamos com um paradoxo: a indiferença por esse tema e ao mesmo tempo o anseio do homem pela imortalidade, o não querer morrer. Muito bem sintetizou Chesterton, dizendo que ‘o que há de mais natural no homem é o sobrenatural’[1]. Num verso de Fausto, Goethe mostra na sua poesia esse aparente paradoxo: ‘Duas almas residem em meu peito. Uma luta para separar-se da outra; uma, mediante órgãos tenazes, se agarra ao mundo em um deleite amoroso resistente, a outra se eleva violenta do pó até as regiões sublimes dos antepassados’[2].

Nietzsche, num trecho de ‘Assim falou Zaratustra’ descreveu o anseio de eternidade que o homem manifesta quando busca o prazer: “O mundo é profundo… profunda é sua dor… Mais profunda todavia que a dor do coração é o prazer. À dor dizemos: passa! Enquanto o prazer exige eternidade, uma profunda, muito profunda eternidade”[3].

Como escreve Schmaus, não somos deuses, mas o seremos, pois ‘o homem é o deus aparecido na terra nas dimensões de criatura’.  No céu se confirmará o que realmente ele é[4].

Na Spe Salvi, Papa Bento XVI lembrou que a Idade Moderna com Francis Bacon  e o racionalismo não negou a fé, mas a deslocou para outro nível.  A esperança agora se chama fé no progresso. O progresso é a superação de todas as dependências, é o avanço para a liberdade perfeita. Assim, entramos no reino do homem ou o reino da razão.

Num segundo momento, com Karl Marx, o mundo moderno acreditou num progresso que vinha, não mais da ciência como queria Bacon, mas da política. A sua promessa, de uma sociedade perfeita, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. Porém, Marx esqueceu-se que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade, e que esta continua no homem, inclusive para o mal. No fundo o seu grande erro foi o materialismo. E finaliza, Bento XVI: “Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor”.

[1] CHESTERTON, G.K., in O homem eterno. Cap. V (O homem e as mitologias).

[2] GOETHE, Fausto I, 1 112-1 115; cit. In STAUDINGER, o.c., pág. 38.

[3] NIETZSCHE, F.; disponível em http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/zara.html (acessado em: 22.04.2010).

[4] M. SCHMAUS, Sobre  la esencia del cristianismo (Patmos, Madrid 1952) 179; citado em FERNÁNDEZ, A., Teologia Dogmática, BAC, Madri, 2009, pág. 1043.

4) Nossa esperança: o céu.

O Catecismo[1] denomina o céu como a vida perfeita com a Santíssima Trindade, a comunhão de vida e de amor com Deus e com todos os bem-aventurados. Isso significa o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado de felicidade suprema e definitiva.

Viver no céu é ‘viver em Cristo’; os eleitos vivem ‘nele’, mas lá conservam – ou melhor, lá encontram – a sua verdadeira identidade, o seu próprio nome;

O céu supera toda compreensão e toda imaginação. A Escritura fala-nos dele em muitas imagens: vida, luz, paz, núpcias, casa do Pai, Jerusalém celeste, Paraíso… porque não há uma única imagem que esgote tudo o que seja o céu.

A Sagrada Escritura usou diversas imagens para falar da ‘vida futura’, uma vez que, como disse Ratzinger, ‘não há uma imagem que possa exprimir com exatidão o inexprimível’ (cf. MVE,236).  São Paulo resume essa realidade futura com essas palavras: ‘o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração humano jamais percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9)’.

Para aprofundarmos o tema, vejamos a estupenda contribuição que nos trouxe o teólogo Joseph Ratzinger, na sua obra ‘Escatologia – Morte e Vida Eterna’, de 1977. O céu[2] é um termo figurado, um símbolo que aponta para o ‘que está no alto’, e que a tradição cristã usou para designar o cumprimento, a perfeição definitiva da existência humana através da plenitude daquele amor em direção ao qual se move a fé. Perguntar-se o que significa ‘céu’ não quer dizer, perder-se em fantasias, mas querer conhecer melhor aquela presença escondida que nos faz viver de verdade, e que no entanto, continuamente deixamos encoberta sob as aparências, afastando-nos dela (MVE, 190/233).

O ‘céu’ é algo primeiramente cristológico. Ou seja, não é um lugar sem história aonde se chega. A existência do céu se funda sobre o fato que Jesus Cristo sem deixar de ser Deus é também homem, e deu ao ser humano um lugar no ser próprio de Deus. O homem está no céu quando e na medida em que está com Cristo e encontra assim o lugar do seu ser homem no ser de Deus.

Por isso, o céu é primeiramente uma realidade pessoal, que permanece para sempre apoiada na sua origem histórica, isto é, no mistério pascal da Morte e da Ressurreição.

O ‘céu’ tem um aspecto teológico, isto é, o fato que o Cristo glorificado continua eternamente a entregar-se ao Pai (MVE,191/233).  O seu sacrifício é um presente contínuo. Ele é ‘templo escatológico’ (Jo 2,19), o lugar onde se rende culto a Deus.

O ‘céu’ deve incluir também uma reflexão eclesiológica (MVE,191/234). Se o céu é fundado sobre a inserção do homem em Cristo, daí se segue que isso comporta também a comunhão com todos aqueles que juntos formam o único Corpo de Cristo. De fato o céu não conhece nenhum isolamento; está aberto à comunhão dos santos e assim também à plenitude de cada convivência humana como conseqüência da total abertura para o rosto de Deus.

O céu tem ainda uma componente antropológica (MVE,191/234). Ratzinger diz que o fundir-se do ‘eu’ com o Corpo de Cristo, o fazer-se instrumento do Senhor e dos outros não significa um dissolver-se do ‘eu’, mas uma purificação, que se realiza mesmo com as suas mais altas possibilidades. Desse modo, o céu é para cada um individual.

O céu tem de um lado, a conotação de recompensa – pelo caminho justo percorrido da parte humana, e de outro lado, significa que é a Graça do amor doado. Quanto à recompensa, a Escolástica, chegou a falar de ‘coroa’ para os mártires, virgens e doutores. A teologia hoje é mais cautelosa, e apenas fala que Deus será a plenitude para cada um a seu modo. Isto significa que não podemos falar de privilégios de um ou outro caminho, mas do empenho de dilatar o mais possível o recipiente da própria vida, isso não para garantir a si mesmo um tesouro mais precioso na outra vida, mas poder distribuir a mais; porque na comunhão do Corpo de Cristo se pode possuir somente no doar-se; a riqueza da perfeição consiste somente no doar-se aos outros (MVE,192/235).

O Cristo glorificado não é ‘tirado do mundo’, mas está além do mundo, e continua em relação com o mundo. O ‘céu’ significa participação nesta forma de existir do Cristo, e assim o cumprimento daquilo que começou no batismo.

Enfim, o céu não deve ser entendido como um ‘espaço’, mas essencialmente como uma ‘elevação’. É como tal uma realidade ‘escatológica’, o abrir-se a tudo aquilo que é definitivo e radicalmente diverso (MVE,192/236). A sua eternidade procede do irrevogável e indivisível amor eterno de Deus.

Com as palavras do Salmista, deixemos arder em nós o desejo pelo céu.“Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. 25. Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. 26. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus. 27. Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós. 28. Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião”. (Sl 72, 24s).

[1] CIC,  1023s

[2] Os textos citados como MVE aqui são da obra  Escatologia- Morte e Vida Eterna, J.Ratzinger, Cittadella Editrice, 2008.

 

Maria Santíssima, estrela de esperança. Aquela que, com o seu sim, abriu para o próprio Deus a porta do nosso mundo, Rogai por nós!

 

Pe. Renato Gomes Andrade,

Diocese de Petrópolis-RJ

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