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A relação de Jesus com os discípulos em Ratzinger

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Jesus chama um núcleo mais íntimo, composto por homens escolhidos por Ele mesmo, os quais continuam sua missão e dão ordem e forma a uma espécie de família. Neste sentido Jesus criou o círculo dos doze.

Queremos neste breve texto lançar luz sobre alguns fragmentos mais importantes dos evangelhos, nos quais a formação da comunidade mais estreita dos discípulos de Jesus se tornou evidente.

No terceiro capítulo do evangelho de Marcos, mais precisamente nos versículos 13 a 19 encontramos o texto central sobre o presente tema: “Depois subiu à montanha, e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele” (Mc 3,13). Lucas em seu texto paralelo reforça o sentido da montanha, que designa o lugar da comunhão com Deus, o lugar elevado, acima da ação e do fazer de todos os dias: “Naqueles dias ele foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos” (Lc 6,12).

Neste sentido, a vocação dos discípulos brota da oração, eles são gerados na oração e na intimidade com o Pai. Eis aí o seu profundo sentido teológico: a sua vocação vem do diálogo do Filho com o Pai e está nele ancorada. É a partir daí que se deve entender os dizeres de Jesus em Mt 9, 38: “Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para a sua colheita. Ninguém pode fazer-se discípulo, trata-se de um acontecimento da eleição, uma decisão da vontade do Senhor, que está firmada na união de vontade de Jesus com o Pai.

Ainda no evangelho de Marcos, o texto em 3, 14 diz que Jesus “constituiu doze”, uma expressão que para nós parece um tanto quanto estranha, mas que na realidade, o evangelista retoma a terminologia do AT para a instituição do sacerdócio (cf. 1Rs 12,31; 13,33) e assim caracteriza o ministério apostólico como um serviço sacerdotal. Porém, os escolhidos são nomeados cada um pelo seu nome, o que nos faz lembrar os profetas de Israel, que Deus chama pelo nome, de tal modo que o serviço apostólico aparece como uma combinação da missão profética com a missão sacerdotal (Jesus de Nazaré, p. 154). O número doze era também o número simbólico de Israel, o número dos filhos de Jacó. Deles vieram as doze tribos de Israel, das quais, no entanto, depois do exílio, só restou a tribo de Judá. Assim, o número doze é um retorno às origens de Israel, mas ao mesmo tempo uma imagem da esperança: Israel será restabelecido, as doze tribos serão novamente reunidas (Compreender a Igreja Hoje, p. 14-15).

O número doze simboliza o número das tribos de Israel, mas também é um número cósmico, no qual se exprime a abrangência do povo de Deus que está para surgir. Os doze estão como fundadores deste povo universal que é fundado sobre os apóstolos (Idem).

Jesus “constitui os doze” com uma dupla finalidade muito precisas: para que estejam com Ele e para enviá-los. De modo eles devem estar com Ele, para O conhecerem, para alcançarem aquele conhecimento ao qual os gentios não podiam ter acesso, que apenas de fora O viam e O tinham por um profeta, por um grande personagem da história das religiões, mas que não podiam captar a sua unicidade. Os doze devem, assim, estar com ele para que conheçam Jesus na sua unidade com o Pai e assim possam ser testemunhas do seu mistério. Estabelecendo com ele uma relação pessoal. De maneira que a evangelização não será senão o anúncio do que sentiram e um convite a entrar no mistério de comunhão com Cristo (Jesus de Nazaré, p. 155).

Neste sentido, os doze são enviados para pregarem a boa nova do evangelho de Jesus e com poder, dado pelo mesmo Jesus, para expulsarem os demônios (Mc 3, 4). De modo que a primeira missão é a pregação, isto é, proporcionar a todos os homens a luz da palavra, a mensagem de Jesus. Eles, tal como Jesus, anunciam o Reino de Deus e reúnem assim os homens para a nova família de Deus. Contudo, a pregação do Reino de Deus nunca é simples palavra, nem simples instrução. Ela é um evento, um acontecimento, tal como o próprio Jesus é evento, palavra de Deus encarnada. Anunciando-O, conduzem-nos ao Seu encontro.

Todavia, precisamente pelo fato do mundo está dominado pelas potências do mal, a pregação dos apóstolos é ao mesmo tempo luta contra estas potências. Ao discípulo de Jesus, isto é ao seu seguidor, cabe o “exorcização” do mundo e a fundação de uma nova forma de vida no Espírito Santo, que cura das possessões. O próprio mundo antigo viveu esta irrupção da fé cristã como libertação do medo demoníaco que, malgrado o ceticismo e o iluminismo, tudo dominava. Da mesma forma ocorre ainda hoje onde o cristianismo sucede às antigas religiões tradicionais e em si mesmo as acolhe, transformando-as positivamente. Podemos inclusive sentir esta irrupção em São Paulo em 1 Cor 8, 5s (Jesus de Nazaré, 156-157).

O evangelho segundo Mateus trata da tarefa do exorcismo, acrescentando a esta a missão de curar (Mt 10,1). Curar é uma atividade inerente à missão apostólica; mais ainda, é uma dimensão essencial da própria fé cristã em absoluto, haja vista que o Senhor vem até nós para libertar, redimir, enfim curar a humanidade de todo mal.

Mas podemos nos perguntar: “A quem Jesus os envia?” Nos parece que no Evangelho o Senhor restringe sua missão e a dos doze apenas a Israel (Mt 15, 24; 10, 5-6). Por isso, a crítica moderna de inspiração racionalista pensa haver uma falta de consciência universal por parte de Jesus. Porém suas palavras que parecem restringir a missão a Israel devem ser compreendidas à luz da sua relação especial com Israel, comunidade da Aliança na continuidade da história da salvação. De acordo com a expectativa messiânica as promessas divinas dirigidas diretamente a Israel hão de se cumprir quando o próprio Deus reunir seu povo através de seu eleito (Ez 34, 22-24).

Sendo assim, os doze, eleitos para participar da mesma missão de Jesus, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, procurando principalmente as ovelhas perdidas da casa de Israel. Contudo, longe de contradizer a universalidade da ação messiânica de Jesus, a restrição inicial da sua missão e dos doze a Israel, se torna um sinal profético ainda mais eloquente. E depois da paixão, morte e ressurreição de cristo esse sinal ficará mais claro ainda, quando Cristo envia os apóstolos “a todo o mundo” (Mc 16,15), a “todas as nações” (Mt 28,19; Lc 24, 47) e “até os confins da terra” (At 1,8) (Cf. Os Apóstolos, p. 18).

Somente Lucas relata que Jesus formou também um segundo grupo de discípulos, que consistia em 70 ou 72 discípulos e que foram enviados com os doze e com uma missão semelhante (Lc 10, 1-12). Da mesma forma como o número dos doze, o número dos 70 ou 72 é um número simbólico. Representa, segundo a tradição judaica (Gn 10; Ex 1,5; Dt 32,8), o número das nações não pagãs do mundo. Atribuía-se a versão grega do AT surgida em Alexandria ao trabalho de 70 ou 72 sábios, na verdade tradutores, querendo-se expressar que por meio deste texto grego, o livro sagrado de Israel se transformaria na Bíblia de todas as nações, como de fato ocorreu quando o cristianismo tomou para si esta tradução. Os 70 discípulos significam, por assim dizer, que Jesus reivindica para si toda a humanidade, que deve tornar-se sua discípula: são sinal de que o novo Israel abrangerá todos os povos da terra (Jesus de Nazaré, p. 161).

Outra particularidade do evangelista Lucas se encontra no capítulo 8,1-3, quando ele nos relata que Jesus que estava a caminho com os doze a pregar, era também acompanhado por mulheres. Ele relata três nomes e diz ainda que muitas outras mulheres O serviam com seus bens. Contudo precisamos compreender que o discipulado dos doze é diferente do discipulado das mulheres, pois as tarefas de ambos os grupos são inteiramente diferentes. Porém, Lucas, assim como outros evangelistas, mostra claramente que muitas mulheres pertenciam à comunidade restrita dos crentes e que seu caminhar de fé com Jesus era essencial para a sua constituição, como percebemos especialmente junto à cruz e na ressurreição (Jesus de Nazaré, p. 162).

Entretanto, dentre estas peculiaridades de Lucas é mister lembrar que ele, de um modo muito especial, estava aberto para o significado das mulheres, assim como também para o significado dos pobres. Não é sem razão que ele é conhecido como o evangelista dos pobres, haja vista que nele se observa a inconfundível opção preferencial pelos pobres.

Enfim, todas essas poucas considerações que fizemos neste breve texto nos evidenciam a universalidade do cristianismo desde sua constituição. E nós, que procuramos às duras penas seguir o Bom Pastor, somos chamados a contribuir para com essa universalidade em vista da verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com o Senhor Jesus Cristo.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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