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A quarentena na Quaresma

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A Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, atingiu em cheio o Ocidente pouco depois do início da Santa Quaresma, tornando-se uma pandemia que colapsa os sistemas de saúde dos países mais desenvolvidos e economicamente mais poderosos, como Itália, Espanha, França e agora até os Estados Unidos da América. É uma verdadeira tragédia que saiu da China e chegou ao Ocidente causando milhares de mortes, crise econômica e muito sofrimento. Para a Covid-19 não há cura, nem vacina, apenas prevenção e tratamento paliativo. É bem verdade que sua letalidade é pequena em comparação com outros vírus. Contudo, sua letalidade entre os pacientes idosos com comorbidades pode ser de até 10%, como é o caso dos octogenários com comorbidades. Além do mais, a sua rápida capacidade de transmissão é muito maior, de modo ser sabido que mais da metade da população será contaminada, mas na maioria dos casos a doença será assintomática.  A gripe SARS, por exemplo, possui letalidade maior, porém menor capacidade de transmissão. Entretanto, a Covid-19 pode atacar diretamente os pulmões, causando uma severa pneumonia com a possibilidade de internação em CTI e uso de respirador, ainda que em um pequeno percentual dos casos. Mas, se houver muitos casos ao mesmo tempo, não há sistema de saúde superdesenvolvido que suporte. A Itália é um exemplo disso e a Espanha e os EUA caminham para o mesmo derradeiro destino. O fato é que, se não há tratamento eficaz e nem vacina, o jeito é focar na prevenção, ou seja, muita higiene e isolamento social, ou como tem sido em geral chamado: quarentena. 

No entanto, a quarentena gera gravíssima crise financeira. E convenhamos que no nosso caso, a economia do Brasil, assim como também da cidade e do estado do Rio de Janeiro, não tem vitalidade e força suficientes para passar incólume a esta gravíssima pandemia. Se a previsão é de que os EUA, a maior potência econômica do mundo, sofrerão dura recessão e desemprego, o que dirá a economia brasileira, que às duras penas tenta se recuperar dos anos de recessão e fraquíssimo crescimento econômico da última década, que elevou o desemprego aos maiores índices já vistos na história do país. E pensemos na situação de nossas paróquias, que sobrevivem de doações e delas necessitam para sua manutenção, promoção da evangelização e do culto e para assistência aos pobres. Mas, parece-nos que não há outra saída senão a quarentena. É ela quem pode salvar vidas diminuindo o ritmo acelerado de contaminação, o que consequentemente evita, ou pelo menos atenua, o colapso do sistema de saúde dos países, mesmo sendo o SUS do Brasil o maior sistema de saúde do mundo, porém deficitário, insuficiente e ineficiente para as necessidades dos brasileiros; talvez porque sejamos um país que prioriza eventos de massa que mais servem para alimentar esquemas de corrupção, em detrimento da saúde do povo, como vimos nos escândalos da Copa do Mundo do Brasil e das Olimpíadas do Rio apurados pelas investigações da operação Lava Jato. 

Pode ser coincidência o fato desta pandemia do coronavírus ter acometido o mundo ocidental tão descristianizado precisamente na Quaresma, obrigando-nos a esta nossa sofrida quarentena. Mas, também pode ser que não. Tenho dito aos meus paroquianos que ela é um sinal para a nossa conversão neste tempo de graça, entretanto tão difícil e marcado por tanto sofrimento. A pandemia nos impõe um verdadeiro deserto. Assim como Jesus entrou no deserto no 1º Domingo da Quaresma e aí passou por quarenta dias e quarenta noites de jejum, até que sentiu fome e justamente neste seu momento de sofrimento e fragilidade fora tentado pelo diabo, nós também neste tempo precioso somos levados ao deserto para aí da mesma forma experimentarmos aridez, isolamento e carências de todas as ordens. E como lidará com esta experiência uma geração tão flexível, pautada na estimulação de necessidades, no sexo, no consumo, no subjetivismo, no culto ao corpo e na demanda por diversão, viagens, atividades lúdicas, interatividade e muito mais? Como nós sairemos deste momento crítico e inédito na história recente da humanidade? Isto só o tempo responderá. Mas, insisto que tal experiência neste tempo forte da Igreja é um sinal para a conversão do mundo. É um sinal para reencontrarmos Cristo, exatamente neste deserto. E em Jesus ressignificarmos toda a nossa existência; e de modo mais preciso encontrar o verdadeiro sentido do sofrimento, para o qual o ser humano em toda sua inteligibilidade e ciência não encontra respostas.

O Papa São João Paulo II em sua encíclica Salvifici Doloris afirma queo sofrimento humano atingiu o vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor, (…) àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo tirado da Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio”. Tais palavras fazem eco àquilo que Santo Agostinho ensinava à Igreja já no século V, afirmando-nos que não há mal neste mundo do qual não se possa tirar um bem ainda maior. Recordemos a “feliz culpa de Adão”, presente na proclamação litúrgica da Páscoa, da qual nos veio a filiação adotiva em Deus. 

De fato, sem culpa alguma, mas pleno de amor, Cristo, em certo sentido, participou dos sofrimentos humanos através do seu sofrimento redentor. De modo que o ser humano também pode participar dos sofrimentos do Senhor unindo-se a Ele no amor, na fé, na esperança, na oração e eminentemente nos sacramentos. Em Cristo, Servo Sofredor de Deus, o ser humano encontra os seus próprios sofrimentos e a eles pode dar novo significado, que é enriquecido pela própria glória da Ressurreição que está por trás do sofrimento do Senhor. Esta glória da Ressurreição brilha, ilumina e dá novo sentido ao sofrimento humano. Sendo assim, o sofrimento torna-se um apelo à dimensão espiritual do ser humano, que por sua vez o diferencia das outras criaturas ao manifestar sua grandeza moral e capacidade de transcendência a partir das realidades concretas da vida para as quais não encontra explicação razoável, como é o caso do velho e indecifrável problema do mal.

Rezemos todos ao Senhor crucificado e ressuscitado, para que também sejamos capazes de encontrar a luz da Sua glória quando as trevas deste momento passarem.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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