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A passibilidade de Deus impassível

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Nestes dias em que tanto se fala em Ucrânia, por causa da guerra que vemos entre este país e a Rússia, e também porque acabamos de vivenciar a Semana Santa, quero aqui recordar um grande teólogo ortodoxo ucraniano esquecido por muitos aqui no ocidente, mas que muito se dedicou à reflexão sobre a impassibilidade divina, ou seja, a questão se Jesus, Deus encarnado, sofreu ou não na sua paixão e morte de cruz. Trata-se de Paul Gavrilyuk, teólogo de abordagem contemporânea no que diz respeito ao mistério da encarnação. Nascido na Ucrânia e radicado nos EUA, Paul Gavrilyuk desenvolveu seus primeiros estudos teológicos em Moscou, sendo um dos primeiros teólogos da antiga União Soviética a ir aos Estados Unidos para prosseguir com seus estudos. Teólogo ortodoxo e historiador especialista em patrística grega e pensamento religioso russo moderno, Gavrilyuk tem construído reconhecimento internacional pela autoria de diversas obras e ministrando palestras e cursos em vários países, além de manter-se como professor de história da teologia na Universidade de Santo Tomás no estado de Minnesota nos EUA.

Paul Gavrilyuk defende que é na controvérsia nestoriana, que a questão sobre a participação de Deus no sofrimento de Cristo encontrará sua maior relevância. Tal questão prepara o Concílio de Calcedônia, de modo que só se pode compreender a cristologia deste concílio a partir da compreensão de suas profundas raízes, ainda não devidamente exploradas. Para Gavrilyuk, as questões teológicas que constituem o centro da controvérsia nestoriana são tão sutis que sua interpretação tem se tornado um tema bastante controvertido entre os historiadores da doutrina. Sua conclusão central resulta na certeza de que é equivocado o pensamento segundo o qual a teologia patrística teria uma noção essencialmente impassibilista de Deus, alterada apenas por poucas vozes que defendiam o sofrimento divino. Para ele, ao contrário, a patrística acredita que Deus, conservando sua plena divindade aceitou livremente todas as consequências que derivam da encarnação, incluindo o sofrimento e a morte na cruz. Com efeito, Deus escolheu esta maneira para salvar o gênero humano, movido por sua infinita compaixão e seu infinito amor pelo gênero humano. E este é um ponto irrefutável da doutrina cristã, assim como do pensamento de Cirilo de Alexandria.

Para Paul Gavrilyuk, só é possível uma reta compreensão das categorias lógicas da teologia patrística, quando nos dispomos a purgar de nossa consciência histórica todo pressuposto da teoria segundo a qual a teologia teria caído ou se associado à filosofia helênica, haja vista que um enfoque interpretativo deste tipo tenderia a desvirtuar a teologia patrística da participação divina no sofrimento. Pois, ao contrário do que se pode pensar, no mundo helênico não havia nada semelhante a um axioma da impassibilidade divina.

Ao longo da obra O sofrimento de Deus impassível, Paul Gavrilyuk sustenta que a postura da Igreja ao longo das principais heresias cristológicas, foi se construindo através de uma série de manobras dialéticas, que objetivava antes de tudo salvaguardar uma certa noção de intervenção divina que se deveria considerar digna de Deus. Por estas referidas manobras dialéticas, a Igreja foi repudiando uma a uma das três estratégias equivocadas que pretendiam eliminar a tensão entre a condição divina de Cristo e as experiências humanas de sua vida terrena.

Tal tensão, que constitui o coração do mistério da encarnação, foi capaz de produzir três manobras que objetivavam dissolvê-la e que ao longo da história cristã adquiriu matizes diferentes. São elas: 1) negar a realidade das experiências humanas de Cristo; 2) renunciar à condição divina de Cristo; 3) afirmar que as ações divinas e as experiências humanas correspondem a dois sujeitos diferentes. Tais manobras foram eleitas por docetistas, arianos e nestorianos, respectivamente. Estes tinham em comum a ideia de que a impassibilidade excluía a participação direta da divindade no sofrimento e sua intervenção na história. Para Gavrilyuk, docetistas, arianos e nestorianos afirmavam uma impassibilidade divina sem matizes e sem restrições. Sustentavam que as experiências humanas eram indignas de Deus e não podiam ser atribuídas a Ele sem diminuir a integridade da natureza divina.

Gavrilyuk recorda que os teólogos ortodoxos, pelo contrário, consideravam que a impassibilidade divina matizada era compatível com certas emoções adequadas a Deus e com o sofrimento do Verbo encarnado. A impassibilidade, segundo nosso autor, era para os ortodoxos, sinal inquestionável de identidade divina.

Para Gavrilyuk, foi Cirilo quem elevou a discussão da doutrina da encarnação, ou mais exatamente da impassibilidade, a um nível nunca antes atingido pelos teólogos patrísticos. Mas, foi com o Concílio de Calcedônia que a discussão chegou ao seu cume. Haja vista que a meta principal da cristologia calcedoniana era manter unidas a divindade e a humanidade de Cristo, bem como a clara distinção de ambas. Para nosso autor, a distinção equivocada entre a humanidade e a divindade, atribuindo experiências humanas diretamente a Deus, têm levado os atuais defensores da passibilidade a afirmar que humanização do Verbo divino seria sem sentido ou pelo menos metafisicamente impossível.

É uma tendência quase que natural do ser humano, ao se empenhar na busca da ciência divina, projetar para Deus atribuições humanas, ou ao menos aplicar-Lhe as nossas categorias. Mas, pelo que temos visto até aqui, Deus, como Deus, não repete o que nós como homens sofremos. Contudo, na encarnação Deus continua sendo Deus, mas participa da condição humana até a dolorosa e humilhante morte de cruz. Permanecendo impassível, Deus assume completamente as experiências de sua natureza humana. Com efeito, para uma abordagem atualizada do Concílio de Calcedônia é mister recuperar a noção de impassibilidade divina, integrando-a de forma mais adequada à reflexão teológica contemporânea sobre o mistério da participação divina no sofrimento do mundo.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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