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A Lectio Divina na Espiritualidade Católica

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A Palavra de Deus, além de ser proclamada, celebrada, ouvida e estudada, deve também ser rezada por meio do exercício espiritual da Lectio Divina, ou Leitura Orante. Trata-se de um método de oração, reflexão e contemplação praticado pelos cristãos desde os primeiros séculos, particularmente entre os monges praticantes das regras monásticas de São Pacômio, São Basílio, Santo Agostinho e São Bento. A espiritualidade entre os primeiros cristãos era essencialmente bíblica e litúrgica, mais ainda entre os monges, que dedicavam boa parte do dia à leitura orante da Palavra de Deus. Porém, a sistematização deste método de oração só surgiu no século XII, com Guigo, o Cartucho.

O Concílio Vaticano II retomou esta antiquíssima tradição católica e a apresentou como proposta de oração para a Igreja do século XX, quando diz: “Exorta igualmente o Santo Sínodo a todos os fiéis cristãos, principalmente aos Religiosos, com veemência e de modo peculiar a que, pela frequente leitura das divinas Escrituras, aprendam ‘a eminente ciência de Jesus Cristo’ (Fl 3,8)… Lembrem-se, porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada pela oração a fim de que se estabeleça o colóquio entre Deus e o homem; pois a Ele falamos quando rezamos; a Ele ouvimos quando lemos os divinos oráculos” (Dei Verbum, 25). 

O Papa Bento XVI, em um discurso no ano de 2005, afirmou: “Eu gostaria, em especial, de recordar e recomendar a antiga tradição da Lectio Divina, a leitura assídua da Sagrada Escritura, acompanhada da oração que traz um diálogo íntimo em que na leitura, se escuta Deus que fala e, rezando, responde-Lhe com confiança e abertura de coração”.

A Lectio Divina, em que a Palavra de Deus é lida e meditada a fim de tornar-se oração, tradicionalmente é uma oração individual, porém, pode ser realizada de modo comunitário ou em assembleia. Trata-se de uma oração e não de um estudo bíblico, ou seja, é um exercício espiritual e, por isso mesmo, de caráter puramente místico, capaz de conduzir a um diálogo íntimo, sincero e amoroso com Deus. Não podemos esquecer que a oração pela escuta da Palavra de Deus corresponde a mais genuína prática espiritual da Igreja, que ora os salmos santificando as horas do dia, assim como faziam Jesus, os apóstolos e os primeiros cristãos em geral.

Com efeito, a lectio divina está profundamente enraizada na celebração litúrgica. Os hinos e as ladainhas da Liturgia das Horas, que trazem os salmos de acordo com o tempo litúrgico da Igreja, exprimindo o simbolismo do momento do dia ou da festa litúrgica celebrada, os seus responsórios, textos dos Padres da Igreja e dos mestres espirituais, revelam mais profundamente o sentido do mistério celebrado, ajudam na compreensão dos salmos e preparam o coração para a oração silenciosa, base para a meditação que, por sua vez, mobiliza o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo (CIC 1177, 2708).

Tal mobilização é imprescindível para se aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir Jesus. Neste sentido, a oração cristã, e mais ainda a lectio divina, deve procurar meditar de preferência os mistérios de Cristo, via e fonte de conhecimento do Senhor Jesus e de união com Ele (CIC 2708).

A lectio divina é constituída por quatro etapas: leitura (lectio), meditação (meditatio), oração (oratio) e contemplação (contemplatio). Na leitura, o texto sagrado é propriamente lido de forma calma e atenta, procurando reconhecer os elementos mais importantes do texto, reconstruindo mentalmente o ambiente, as personagens, as imagens, ações, palavras, etc. A meditação é o aprofundamento ou interiorização da Palavra que Deus comunicou ao leitor; é a verdadeira escuta em que a pessoa assimila a Palavra para a própria vida, para a sua realidade em particular, para a situação que ela vive; aí é Deus mesmo quem fala ao orante pessoalmente e é preciso ouvi-lo. A oração é a resposta a Deus, que antes falou ao orante. É um momento muito especial e de grande intimidade com o Senhor, em que nós podemos louvá-lo, pedir-lhe perdão, o discernimento, o crescimento na fé, na esperança e no amor, de acordo com a história ou momento pessoal de cada um; aí se estabelece um diálogo humilde, sincero e amoroso com Deus. E por fim, a contemplação é o momento em que as palavras já não são mais necessárias, pois é quando se permanece em silêncio diante da presença misteriosa de Deus; aí o orante cala-se, adora e entrega-se ao Senhor.

A lectio divina é, portanto, uma oração mental. Santa Teresa afirma que a oração mental “é apenas um relacionamento íntimo de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados”. E como é desafiador se empenhar neste estilo ou modo de oração em tempos de tantas imagens, ruídos e vozerios, quando mais precisamos ter os olhos fixos no Senhor. Há que se ter firmeza de vontade, inclusive, para além da “falta de tempo”. Tempo é questão de prioridade. Não podemos rezar somente quando temos tempo. Devemos reservar um tempo para o Senhor, ou para sermos do Senhor, com a firme determinação de não nos distrairmos durante o percurso de encontro, a fim de não estagnarmos, mesmo que a aridez espiritual e as provações da vida presente sejam as próprias distrações. 

É verdade que nem sempre a meditação nos é possível, mas sempre é possível orar ou falar com Deus, independentemente das condições de saúde, trabalho ou afetividade. E como é bom recolher nosso espírito e deixarmo-nos conduzir pelo Espírito à presença de Deus, que nos espera! Como é bom deixar cair as máscaras diante do Altíssimo, que nos ama como somos! Como é bom entregarmo-nos a Ele como oferenda que precisa ser purificada e transformada, sabendo que precisamos desta purificação e transformação que só Ele mesmo pode nos conceder. Esta é a oferta que mais agrada a Deus.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Pároco da Basílica Nossa Senhora de Lourdes da Arquidiocese do Rio de Janeiro

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