fbpx

A Eucaristia que transubstancia o mundo

 em Artigos

Na última quinta-feira nós celebramos a grande solenidade de Corpus Christi, festa litúrgica de origem devocional que tem como nota característica a publicidade do testemunho de fé e piedade para com este sacramento decorrente de sua própria instituição, quando Cristo na noite em que foi entregue para sofrer a paixão e morte de cruz, ceou com seus discípulos e lhes entregou o sacramento do Seu Corpo e Sangue para ser prolongado no tempo pela Igreja e na Igreja. De tal modo que não é cabível uma dissociação do evento bíblico que enseja a Missa da Ceia do Senhor, celebrada na Quinta-feira Santa, da festa de Corpus Christi, celebrada na quinta-feira após a solenidade Da Santíssima Trindade. Ambas as celebrações têm como fundamento o único e mesmo mistério de amor do Senhor, que redime, liberta e concilia, entregue à Igreja, a despeito de suas debilidades humanas; melhor dizendo, talvez o Senhor tenha nos deixado este mistério do Seu amor exatamente porque nossas debilidades o torna necessário a nós como verdadeiro remédio ou mesmo terapia cotidiana, visto que assim o Senhor se faz presente em nossas vidas todos os dias sobre o altar do santo sacrifício.

A palavra Eucaristia é de origem grega e significa “ação de graças”. Mas na teologia cristã, ela significa mais que isso, quer referir-se à renovação, atualização ou perpetuação do mistério pascal, ou seja, do mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor, no tempo. É evidente que esta palavra já existia antes mesmo que o Cristo se encarnasse e entrasse em nossa história. Entretanto, Ele a ressignifica para muito além daquela dimensão meramente humana. Ele transforma em bênção e gratidão, ou ação de graças, a cruz, o sofrimento de todo o mundo, fruto do pecado humano. De tal modo que todo o mal do mundo é transubstanciado em bem. E a morte, a maior consequência do mal presente no mundo, é transubstanciada em vida.

Cristo verdadeiramente transubstanciou de maneira permanente a vida e o mundo pela força do seu amor. Fez novas todas as coisas de forma definitiva. E este mistério é prolongado ou estendido no tempo através da celebração litúrgica. E quanta generosidade de Nosso Senhor! Não quis se alhear de nossa realidade, mas quis unir-se a nós e permanecer conosco de modo irrevogável pelos mistérios de Sua encarnação e de Sua Páscoa atualizados a cada eucaristia. Pois, Aquele que se fez homem no seio de Maria sempre Virgem é o mesmo que na última ceia se fez pão e assim continua a fazer-se pão da verdadeira vida todos os dias pelo ministério dos sacerdotes.

Cristo poderia fazer-se alimento de outra forma. Ter se feito pão já é de uma delicadeza imensurável para conosco; primeiro porque não suportaríamos comer e beber carne e sangue humanos – daí o escândalo ao final do discurso eucarístico de Jesus em João 6 – e segundo porque o pão é alimento simples e comum a quase todas as civilizações, por isso mesmo, de fácil acesso aos mais pobres.

De igual modo é de imensuráveis amor e misericórdia que Ele tenha escolhido homens falhos e cheios de debilidades – desde os apóstolos – para lhes entregar este diviníssimo mistério para que eles, pelos sacramentos, estendessem a presença e atuação reais do Senhor na nossa história. Pois, como diz Santo Agostinho: “A Igreja faz a eucaristia e é feita pela eucaristia”. E a Igreja é o corpo místico do Senhor, conforme nos ensina a própria doutrina apostólica.

Que Deus é este que quis submeter-se à ação do ser humano depois de negar-se assim fazê-lo a Moisés, naquele episódio da sarça ardente em que o profeta quer saber o nome do Deus que o enviara para libertar o povo, a fim de que, pela invocação do Seu santo nome, pudesse exercer domínio sobre Ele? Pois São João Maria Vianney diz que Deus obedece ao sacerdote, quando este pronuncia algumas poucas palavras (as palavras da consagração eucarística) e Aquele se torna presente em suas mãos sobre o santo altar. Por isso que o grande santo patrono dos sacerdotes, muito acertadamente, define o sacerdócio como o amor do Coração de Jesus. Amor que tudo vence, supera, liberta e absolve.

O momento de calamidade em que vivemos, ocasionado pela pandemia da covid-19, que colocou o mundo em profunda crise a atingir vários âmbitos da nossa realidade, ou como alguns dizem, “colocando o mundo de joelhos”, mais ainda deve colocar em posição genuflete aqueles que têm fé; particularmente genufletes diante do mistério eucarístico. Se as celebrações da Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa, e de Corpus Christi, na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, são pontuais em nosso calendário litúrgico, assim não deve ser a nossa devoção eucarística, praticada, sobretudo, de duas formas que devem ser habituais: eminentemente no ato de comungar e piedosamente no ato de adorar.

Malgrado todas as perdas que estes tempos difíceis têm nos imposto, a eucaristia permanece para nós como ação de graças de Jesus a qual precisamos nos unir, para assim receber a novidade da vida que Ele nos dá e ajudar na transubstanciação do mundo. Pois nós comungamos da Sagrada Eucaristia para sermos também eucaristia para o mundo, para que não seja um mundo de morte, mas de vida. Um mundo em que o amor venceu e continua a vencer a morte.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

Entre em contato conosco

Por favor escreva sua mensagem aqui:

0

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar