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450 anos da batalha de Lepanto (PARTE II)

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Em nosso último editorial abordamos o tema do aniversário de 450 da Batalha de Lepanto e a sua importância, tanto para a liberdade dos cristãos na Europa do século XVI, quanto para a promoção da devoção ao Santo Rosário em toda a Igreja. Ali, de forma muito breve apresentamos a historiografia de tão importante e decisiva batalha para a permanência e vigor da cultura cristã no continente europeu. Entretanto, há que se reconhecer a necessidade de lançar um olhar amadurecido e contemporâneo sobre este evento deveras decisivo para a Igreja ainda no início da era moderna, sem, contudo cairmos em anacronismos, que seria o movimento de procurar estabelecer julgamentos sobre fatos há muito ocorridos com a mentalidade que hoje temos, no que incorreríamos em ato minimamente equivocado, senão mesmo intelectualmente desonesto.

Se no passado as nações resolviam seus problemas empenhando-se em guerras e batalhas das mais sangrentas, a Igreja há muito percebeu que a melhor forma de resolver questões entre os povos é a diplomacia, daí então a diplomacia vaticana ser modelar e das mais bem conceituadas do mundo, tendo sua primeira nunciatura apostólica estabelecida na República de Veneza em 1500 e hoje mantendo relações diplomáticas com 180 Estados soberanos, além da Ordem Soberana e Militar de Malta, da União Europeia e do Estado da Palestina. Daí então, a Santa Sé e os Romanos Pontífices terem se manifestado ininterruptamente contra as guerras, sejam elas por motivações religiosas, disputas por territórios ou por quaisquer outros motivos. A busca pela paz deve ser sempre o imperativo maior. Com efeito, tem sido esta uma constante na pregação da Igreja, particularmente após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o anúncio de que a paz querida por todos os corações é fruto da fraternidade, da liberdade, da justiça social e, sobretudo, da conversão, visto que daí todos os verdadeiros valores decorrem.

Com efeito, foi a partir do giro antropológico do Concílio Vaticano II que a Igreja passou a defender contundentemente a liberdade religiosa em ambiente totalmente diferente do passado, em que se tinha em mente a manutenção daquilo que chamávamos de cristandade. A grande novidade na defesa da liberdade religiosa que vem a partir do Concílio Vaticano II é o próprio ambiente de pluralidade religiosa, em que a Igreja já não mais defende somente os seus direitos, mais o direito humano de liberdade de expressão religiosa independentemente de qual ela seja. O próprio preâmbulo da Declaração Nostra Aetate sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs do Concílio Vaticano II, assim considera: “Hoje, que o gênero humano se torna cada vez mais unido, e aumentam as relações entre os vários povos, a Igreja considera mais atentamente qual a sua relação com as religiões não-cristãs. E, na sua função de fomentar a união e a caridade entre os homens e até entre os povos, considera primeiramente tudo aquilo que os homens têm de comum e os leva à convivência” (Nostra Aetate, 1)

Contudo, reconhecer o acima exposto não significa renunciar a missão evangelizadora, parte inerente da própria essência do cristianismo, nem mesmo fazer concessões doutrinárias, como se todas as religiões fossem igualmente capazes de salvar. Antes, trata-se de reconhecer e promover mais os elementos em comum que nos unem, do que os elementos de disparidade que nos separam: “Com efeito, os homens constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano; têm também todos um só fim último, Deus, que a todos estende a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus desígnios de salvação até que os eleitos se reúnam na cidade santa, iluminada pela glória de Deus e onde todos os povos caminharão na sua luz. Os homens esperam das diversas religiões resposta para os enigmas da condição humana, os quais, hoje como ontem, profundamente preocupam seus corações: que é o homem? qual o sentido e a finalidade da vida? que é o pecado? donde provém o sofrimento, e para que serve? qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual vimos e para onde vamos?” (Nostra Aetate, 1).

Neste sentido, com um discurso neste nível conciliador, não há espaço para qualquer tom beligerante mesmo frente à beligerância de grupos radicais e extremistas presentes em algumas religiões cristãs e não-cristãs. E ao falar em radicalismos e extremismos, como não pensar em grupos intolerantes ao cristianismo como Talibã e Isis, o chamado Estado Islâmico? Entretanto, estes e outros grupos extremistas não representam a totalidade do universo islâmico nem sua riqueza cultural. Sobre os mulçumanos, assim declara o concílio: “A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço à vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens” (Nostra Aetate, 3). Nesta última frase podemos incluir o episódio da Batalha de Lepanto, ainda que não fosse uma batalha contra o Islã em si, mas contra a ação expansionista e tirânica do Império Turco Otomano.

Por fim, resta-nos evocar o ensinamento final presente no referido documento, segundo o qual não se pode invocar a Deus como Pai de todos, se recusarmos o tratamento fraterno a outros seres humanos criados também à imagem de Deus, visto que a relação do homem para com Deus Pai e a relação do homem para com os homens irmãos, de tal modo estão associadas que São João diz em 1Jo 4,8 que “quem não ama, não conhece a Deus” (Nostra Aetate, 5). E ainda: “A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião. Consequentemente, o sagrado Concílio, seguindo os exemplos dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, pede ardentemente aos cristãos que, «observando uma boa conduta no meio dos homens. (1 Ped. 2,12), se ‚ possível, tenham paz com todos os homens, quanto deles depende” (Nostra Aetate, 5). Desta maneira, até as intenções da oração do Santo Rosário nestes tempos pós-concílo, devem ser de paz, fraternidade, respeito e unidade entre todos. Mas, novamente, há que se recordar que estes valores são, antes de tudo, fruto da conversão, inclusive das pessoas da Igreja.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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