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1570 do Concílio de Calcedônia e o Jesus Histórico

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Entre os dias 8 de outubro e 1 de novembro de 451 realizou-se o Concílio Ecumênico de Calcedônia, o quarto dos vinte concílios ecumênicos da história da Igreja. De modo que neste 2021 completam-se 1570 deste concílio fundamental para a  eclesiologia e cristologia que daí seguiram chegando aos nossos dias como bazilares para toda a Igreja. Quanto à eclesiologia, o concílio nos lega a definição do primado do Romano Pontífice, e quanto à cristologia, ele nos lega a definição da plena divindade e plena humanidade de Cristo na Sua única pessoa, a segunda da Santíssima Trindade. Entretanto, neste editorial concentraremos nossa reflexão apenas no que diz respeito à cristologia e sua relação com a questão do Jesus histórico.

Nas duas últimas décadas surgiu um interesse renovado pela questão do Jesus histórico no meio acadêmico, literário e até cinematográfico. Tal interesse tem como pano de fundo a própria ciência cristológica, que por primeiro redescobriu a questão do Jesus histórico a partir do renascimento dos estudos bíblicos e descobrimento de novas fontes que levam à contextualização histórica e cultural da pessoa Jesus de Nazaré, além da influência das ciências modernas. Estes aspectos conduziram a uma nova visão, segundo a qual a cristologia contemporânea não pode mais pautar-se unicamente sobre a confissão de fé das definições conciliares, simplesmente considerada como adquirida. Hoje a cristologia há que fundamentar-se na história e no destino de Jesus.

Entretanto, essas novas ferramentas teológicas têm servido muitas vezes para estabelecer uma rotura entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Assim como muitas vezes se estabelece uma cisão radical entre as diversas cristologias do Novo Testamento (principalmente ascendente X descendente), diminuindo qualquer consideração de complementaridade recíproca que estas possuem em seu interior e na totalidade do corpo do Novo Testamento. Com efeito, é preciso admitir que da mesma forma que o redescobrimento do Jesus histórico lançou luz sobre o renascimento da cristologia, uma abordagem atualizada da fórmula de Calcedônia, principalmente que parta da relação única de Jesus com o Pai, vem propor ao estudo do Jesus histórico uma abordagem articulada com as definições conciliares, uma vez que tanto a cristologia atual quanto o tema Jesus histórico têm por fonte primeira os textos neotestamentários. Uma parceria neste nível só vem a somar e diminuir, senão corrigir, roturas que muitos estabelecem entre o Jesus histórico e o Cristo da fé.

Precisamente sobre a pertinência de alguns aspectos suscitados por diversos autores da área, devemos entender que uma cristologia renovada que tenha como ponto de partida o dado fundante do Novo Testamento faz do Concílio de Calcedônia uma interpretação reguladora e normativa no momento de interpretar o dado bíblico, de modo que não é apropriado considerá-lo uma referência absoluta para a cristologia. Ora, tal valorização do texto neotestamentário ao ponto de tê-lo como dado fundante da cristologia, consequentemente nos leva a redescobrir uma pluralidade de abordagens cristológicas, ou seja, movimentos internos das diversas cristologias que existem no Novo Testamento, em que nenhuma é por si só absoluta ou autônoma, mas cada uma tem necessidade da relação complementar com as demais. Logo, o mistério da encarnação, visto como mistério pleno de Cristo que encontra o seu ponto mais alto na ressurreição como momento iluminador de todo o mistério de Cristo, faz da cristologia uma exposição mais articulada com o Novo Testamento, de maneira que nele encontramos a relação ímpar de Jesus com o Pai, bem como a manifestação concreta de sua consciência divina.

Por outro lado, torna-se também mister fazer justiça ao Concílio de Calcedônia a partir de uma equilibrada hermenêutica conciliar, reconhecendo que algumas das críticas que têm sido feitas ao dogma calcedoniano, são consequência de posturas que enfatizam alguns aspectos, sem considerar outros igualmente importantes e até mesmo imprescindíveis, como por exemplo o fato de acusar Calcedônia de não ter contemplado todos os aspectos da cristologia, partindo de uma pré-compreenção do concílio como se fosse, ou quisesse ser, uma síntese do mistério de Jesus, quando a verdadeira intenção do concílio não era fazer síntese cristológica ou ainda um tratado completo de cristologia, mas sim fazer frente ao nestorianismo e monofisismo eutiquiano da época, salvaguardando a completa realidade divina e humana em Jesus Cristo.

Há quem acuse a fórmula calcedoniana de priorizar a cristologia “do alto”, sem levar em consideração a evolução cristológica presente nos evangelhos sinóticos. Mas o ambiente teológico em que foi celebrado o sagrado concílio de Calcedônia partia da perspectiva “do alto”, e a síntese proposta pelo Concílio seguiu a mesma direção. É verdade que há quem diga que desta maneira, a Fórmula de Calcedônia dificultaria a compreensão da kénosis (BOFF, L. Jesus Cristo Libertador, p.209). Porém, como defendem muitos teólogos ortodoxos, o conceito de kénosis vem exatamente ao encontro da definição de 451 e a torna mais clara.

Outro questionamento que também se ergue é aquele relativo à encarnação, tal qual a fórmula calcedoniana a professa, alegando-se que atinge somente Jesus de Nazaré e não todo o gênero humano, verificando-se, portanto uma ausência de perspectiva universal e cósmica – Jon Sobrino é um dos expoentes deste pensamento equivocado. Contudo, tal ausência já é verificada nos Padres Gregos e Latinos, e se não foi contemplada pela fórmula calcedoniana é porque não havia esse enfoque naquele dado momento histórico e teológico.

Outra observação que de quando em vez surge é a de que a Fórmula de Calcedônia adota um esquema dualista que prejudicaria a compreensão da unidade de Cristo (AMATO, A. Gesú il Signore., p.300). Trata-se de um questionamento pertinente, que remete à parcela de verdade dos alexandrinos, contudo a Fórmula de Calcedônia expressa com consistência e clareza suficientes a unidade da pessoa de Cristo e suas naturezas unidas na sua Pessoa divina. Calcedônia não somente afirma como também salvaguarda a integridade da natureza humana comprometida pelo monofisimo eutiquiano. Sendo assim, o Concílio de Calcedônia confessou a realidade e a perfeição da humanidade assumida em Cristo, de modo que a encarnação não anula a humanidade assumida pelo Verbo, mas a confirma e a promove.  A partir da expressão “em duas naturezas” o Concílio foca sobre a verdade da natureza humana que pode estar em absoluta proximidade com Deus, de maneira que a humanidade não é diminuída, mas elevada[1]. Além do mais, Deus não é um ente que se pode por em paralelo com o homem, pois é aquele que transcende todos os entes (BOFF, L. Jesus Cristo Libertador, p.209). Trata-se de uma contradição necessária para expressar o paradoxo da coexistência de divindade e humanidade em Jesus de Nazaré, a quem confessamos plenamente Deus e plenamente homem.

Pe. Valtemario S. Frazão Jr.

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